Mostrando postagens com marcador o mágico de oz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador o mágico de oz. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de março de 2026

It's Dorothy (EUA, 2025)

“It’s Dorothy!”, de Jeffrey McHale, o mesmo de “You Don’t Nomi”, faz uma pergunta aparentemente simples: por que uma personagem criada no início do século XX continua mobilizando afetos tão intensos em diferentes gerações? A resposta é construída ao longo de um ensaio audiovisual que revisita a trajetória cultural de Dorothy Gale, desde sua origem em O Mágico de Oz, de L. Frank Baum, até as inúmeras reinterpretações que atravessaram cinema, teatro e televisão. O filme organiza esse percurso como uma investigação histórica e afetiva, combinando entrevistas, números musicais e imagens de arquivo para mostrar como a jovem do Kansas se transformou em um dos símbolos mais icônicos da cultura pop.

A estrutura funciona como um painel de depoimentos e performances. McHale convoca diferentes intérpretes da personagem, como Ashanti, Fairuza Balk e Nichelle Lewis, além de comentaristas culturais como John Waters e Lena Waithe. O resultado é uma narrativa plural que examina como cada geração reinterpreta Dorothy a partir de suas próprias experiências sociais e políticas.

Visualmente, o filme aposta em uma montagem dinâmica que mistura trechos de filmes, performances musicais e animações gráficas. Essa estética vibrante reforça a natureza mutável do mito de Dorothy, que atravessou décadas de adaptações, do clássico musical de estrelado por Judy Garland até reinterpretações como "The Wiz", "Os Muppets" e produções contemporâneas da Broadway.

O documentário também se destaca pelo modo como conecta Dorothy a discussões mais amplas sobre representação e identidade. Depoimentos destacam como a personagem funcionou como um ponto de identificação para pessoas marginalizadas, especialmente mulheres e artistas de diferentes origens raciais. Ao dar espaço a essas vozes, o filme transforma a análise cultural em um exercício de escuta coletiva, sugerindo que o poder simbólico de Dorothy reside justamente em sua capacidade de atravessar fronteiras sociais e históricas.

A dimensão queer ocupa um lugar central nessa reflexão. Desde a consagração de Judy Garland como ícone LGBTQ+ até a expressão histórica “friend of Dorothy”, o documentário examina como a personagem se tornou um símbolo de identificação para comunidades queer. A jornada de Dorothy, uma jovem deslocada que busca pertencimento em um mundo estranho, é frequentemente lida como metáfora para experiências de marginalização e descoberta identitária.
“It’s Dorothy!” funciona como uma celebração da persistência de um mito cultural. Ao reunir memórias pessoais, números musicais e análise crítica, McHale demonstra que Dorothy continua sendo uma figura capaz de atravessar gerações justamente porque encarna uma busca universal por pertencimento. O documentário sugere que a força da personagem não está apenas na nostalgia que evoca, mas na capacidade contínua de inspirar novas leituras sobre identidade, imaginação e comunidade, provando que a estrada de tijolos amarelos permanece aberta para quem ainda procura um lugar para chamar de lar.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, EUA, 1939)

 

“O Mágico de Oz”, de  Victor Fleming, começa no Kansas sépia e apresenta Dorothy Gale (Judy Garland), uma garota deslocada que sonha com outro lugar enquanto canta “Somewhere Over the Rainbow”. A canção virou hino queer, assim como Judy Garland se tornou ícone gay, ligada ao termo “Friend of Dorothy”, código de reconhecimento em tempos de repressão, e também à herança de seu pai, Frank Gumm, do ‘vale’ e artista vaudeville.

Em “O Mágico de Oz”, a oposição visual entre o Kansas em tons apagados e o Technicolor explosivo de Oz funciona como metáfora do armário e da descoberta. O momento em que a porta se abre e o mundo ganha cor é pura revelação, uma experiência sensorial de liberdade, desejo e espanto que marcou gerações de espectadores.

A tempestade atua como catalisador de mudança, empurrando Dorothy para uma jornada de amadurecimento próxima ao coming of age de hoje. Oz surge como território do novo, do estranho e do possível, e a Estrada de Tijolos Amarelos marca o início simbólico de uma caminhada rumo à autonomia e ao autoconhecimento.

Quando Glinda, a Bruxa Boa do Norte (Billie Burke), pergunta “Você é uma bruxa boa ou uma bruxa má?”, ela oferece mais que sapatos mágicos, que simbolizam o glamour e a libertação, inaugura uma escolha identitária. Já a Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) encarna a figura opressora, vigilante e punitiva, uma força que tenta conter quem ousa ser diferente. Glinda ainda incentiva os munckins a "Come Out, Come Out where you are", o que ressoa diretamente como a saída do armário.

Totó (interpretado pela cadela Terry) representa o aliado inesperado e fiel, enquanto os companheiros de estrada formam uma família escolhida. O Espantalho (Ray Bolger), em busca de cérebro, o Homem de Lata (Jack Haley), que deseja um coração, e o Leão Covarde , (Bert Lahr), marcado pela falta de coragem de uma geração, são outsiders completos, facilmente lidos como personagens queer-coded.

O campo de papoulas surge como último obstáculo antes da Cidade das Esmeraldas, um entorpecimento perigoso que pode ser lido como anestesia social ou fuga antes da afirmação plena. Superá-lo é atravessar o medo e seguir em direção a um espaço de visibilidade e celebração.

A Cidade das Esmeraldas é puro encantamento, exagero e fascínio: cavalos coloridos, música, maquiagem, performance e o famoso penteado do Leão. Ali, o Mágico (Frank Morgan) se revela como alguém que usa truques para esconder sua verdadeira persona, uma figura que vive de fachada, ecoando experiências de dissimulação vividas por muitas pessoas queer.

Ao impor uma missão impossível, o Mágico testa o grupo, mas “O Mágico de Oz” deixa claro que aquilo que eles buscavam sempre esteve dentro deles. A frase final, “Não há lugar como nosso lar”, é uma ode a aceitação e amadurecimento, afirmando que o verdadeiro retorno é para um lugar onde só se pode existir com verdade.


domingo, 2 de outubro de 2022

Rainbow(Espanha, 2022)


Em Rainbow, a reinvenção de O Mágico de Oz pela mente do espanhol Paco León, Dora(Dora Postigo) é uma adolescente com um talento extraordinário para a música e uma energia interior difícil de conter. Após uma forte discussão com o pai em seu aniversário, Dora sai de casa na companhia de seu cachorro Totó e inicia uma jornada em busca de sua mãe, que nunca conheceu porque desapareceu.

Ao longo do caminho, ela faz novos amigos com quem embarca em uma viagem para Capital City, mas também enfrenta inimigos perigosos que tentam impedi-la de descobrir o mistério de seu passado por todos os meios. Mas a vitalidade e a magia de Dora a ajudam a chegar ao fim de sua jornada, que é o início de outra. 


Por esse caminho, encontra-se uma realidade que Dora percebe de uma forma muito diferente: fantasia, música e ritmo se unem em seus olhos, mas também em seu coração, ela tem um jeito muito peculiar de sentir e vivenciar as coisas, algo que suaviza muito a realidade que às vezes é chocante.


Dora pode ser diferente em muitas coisas, mas em sua busca pela verdade, ela descobre que, no fundo, todos querem o mesmo. A intenção de Dora é clara: conhecer sua mãe. Mas essa intenção vale muito mais do que saber quem é Pilar: saber quem ela é, encontrar sua própria identidade, desenvolver-se como pessoa e ser livre para escolher o caminho que quer seguir. Essa é a verdadeira busca.

O império da beleza se manifesta ao longo do filme como um símbolo de superficialidade e hipocrisia, mas também como um mundo de poder e controle dominado por Coco, personagem de Carmen Maura, que vive uma relação abusiva com sua assistente Maribel(Carmen Macchi). Rossy de Palma e Ester Exposito fazem vislumbres como modelos da marca de Coco.

E além do arco-íris, a conexão que une a todos como um ser, um mundo onde injustiça, violência, xenofobia, homofobia, misoginia, maus tratos se transformam em tolerância, respeito, empatia, assertividade e afeto.


Rainbow é um filme com muita ternura. Isso se mostra, sobretudo, em como Dora percebe aquele mundo e como a personagem é capaz de mudá-lo com a música. Uma explosão de cores e imagens espetaculares. O filme apresenta uma grande variedade cromática de luz e textura, não só na fotografia, mas também no figurino e na maquiagem.


Rainbow é um filme com cores de esperança, sinal de que tudo é muito mais simples do que pensamos. A escolha de si mesmo não deve ser imposta, nem tomada pelo que a maioria diz, nem condicionada por uma razão de raça, sexo ou religião.