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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Álbum de Família (Argentina, 2024)

“Álbum de Família”, documentário argentino dirigido e coeditado por Laura Casabé, reconstrói a trajetória de Claudia Pía Baudracco não como biografia linear, mas como gesto político de memória. Pioneira na luta pelos direitos das pessoas trans na Argentina e figura central na fundação da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros da Argentina, Baudracco emerge no filme como presença coletiva, alguém cuja vida só pode ser compreendida em relação a uma comunidade historicamente empurrada para a clandestinidade, o exílio e a morte. O filme parte do reconhecimento de que, para a população travesti-trans, a ditadura não terminou em 1983, prolongando-se por décadas em violência policial, apagamento institucional e exclusão social.

A espinha dorsal do documentário é o vasto arquivo pessoal de Baudracco, hoje preservado na Biblioteca Claudia Pía Baudracco, composto por milhares de fotografias, cartas, postais, bilhetes de viagem e recortes de jornais. Casabé transforma esse acervo em um verdadeiro álbum de família simbólico, capaz de devolver rosto, corpo e cotidiano a uma história sistematicamente negada. As imagens não funcionam como ilustração, mas como prova de existência, afirmando que essas vidas sempre estiveram ali, apesar da ausência quase total de registros oficiais. A pesquisa conduzida por Paula Bistagnino, com colaboração de Fernando Krapp, organiza esse material como uma cartografia afetiva da resistência trans argentina.


Ao articular arquivos com entrevistas de sobreviventes e ativistas, como María Belén Correa, o filme evidencia que a luta de Baudracco nunca foi solitária. “Álbum de Família” insiste na ideia de comunidade como estratégia de sobrevivência, destacando as famílias escolhidas, a ajuda mútua e a irmandade como respostas diretas à violência do Estado e da sociedade. Há um contraste contundente entre as pautas da militância gay e lésbica de classe média nos anos 1990 e as reivindicações travestis, centradas no direito básico de existir, circular e não ser assassinada. Essa diferença de prioridades expõe hierarquias internas no próprio campo LGBTQIA+.


O documentário evita a solenidade.  Em meio ao luto, há espaço para a alegria queer, para o humor, para o prazer de se ver e de se reconhecer nas imagens recuperadas. Casabé filma a memória não apenas como arquivo de dor, mas como território de celebração e continuidade. A montagem sublinha a dimensão coletiva da resistência, reforçando a ideia de que a história travesti-trans não é feita de exceções heroicas, mas de um coletivo que avança junto, apesar das perdas.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Te Estoy Amando Locamente(Espanha, 2023)

O filme segue uma jornada que começou em Sevilha, em 1977, para Miguel (Omar Banana). Destinado ao caminho certo, ao caminho de ser advogado, de ser um bom filho, sua mãe Remedios (Ana Wagner), depois de sofrer com o suicídio do marido e assumir a alfaiataria que os sustenta, é forçada a cuidar dele.

Um caminho que é interrompido um dia quando ele conhece Madame 2000 (La Dani) em uma performance estelar. Estrelas que Miguel quer interpretar participando de um show de talentos. Um sonho que será interrompido quando ele for preso por dois policiais secretos. A lei da periculosidade e da reabilitação social ainda estava em vigor, na Espanha.


Uma realidade que surpreende Reme é descobrir que o filho foi preso por exibicionismo e comportamento homossexual desviante. A partir do medo, do terror de uma mãe, ela tenta descobrir o que poderia ter acontecido, quem são os novos amigos do filho e por que uma situação tão angustiante se desenvolveu. É ali, nos extremos, que ela descobre uma verdadeira rede de apoio e confiança, fato que fará forjar uma luta. A luta.


Ela luta para tirar o filho da prisão, luta pelo estigma social, luta pelo classismo vigente, luta contra um sistema judicial excludente, luta pela vontade de cada um, luta para ser. Uma luta da qual nasceu em Sevilha o atual movimento LGTBIQA+, da Espanha.


O longa é uma documentação, de um ponto de vista fictício, mas embutindo sua crônica na história real dos primeiros gays e lésbicas que ousaram, com a democracia primária ainda tentando fazer seu caminho, sair do armário, apresentar-se à opinião pública como o que eram. Um grupo marginalizado, perseguido, subjugado, que muitas vezes sofria a arbitrariedade da "justiça" de Franco na forma de prisões e torturas.

Nesse aspecto, a obra é dura e frontal. Prestam homenagem, mas não hesitam em mostrar a dureza e a rejeição de uma geração que não merece ser enterrada no esquecimento. Consegue isso com um elenco magnífico, ancorado por Alba Flores, como uma líder da frente lésbica.


Alejandro Marín, criador da série Maricón Perdido, juntamente com Carmen Garrido, escrevem um roteiro onde a unidade do diferente forja uma frente contra as injustiças. Um filme para mostrar o motivo do orgulho, para mostrar a ‘normatividade ‘e como enfrentá-la através de um caso específico que era muito comum na Espanha pós-Franco, onde a angústia da suposta nova liberdade foi afogada pelas raízes fascistas dos anos anteriores. 


Te estoy amando locamente, em referência à emblemática canção cantada por Las Grecas, em 1973, busca ser um exercício de homenagem e memória histórica. O diretor, Alejandro Marín, mostra as suas intenções numa produção que tem o desafio de ser uma das primeiras a olhar para a história do movimento LGBTQIA+ na Espanha, da qual quase nenhuma informação é conhecida.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Are You Proud?(Reino Unido, 2018)




Este documentário, dirigido por Ashley Joiner, é uma tentativa ambiciosa de conectar os pontos, diferenças e intersecções com as quais vivemos e trazemos em nossas bagagens históricas como pessoas queer, nos fazendo um questionamento. Quanto mais para trás o filme vai, mais ele é capaz de discernir claramente conexões históricas distintas.

Uma linha do tempo é criada com relações causais estabelecidas entre os eventos que acontecem nos movimentos de direitos civis nos EUA, a batalha de Stonewall, o desenvolvimento da Libertação Gay e as mudanças legislativas no Reino Unido.


Cada cor do arco-íris recebe alguma luz. Questões de gênero, raça, classe, habilidade, status de imigrante têm um momento e uma voz. A conclusão é que a igualdade não se conquista sem que se ganhe para todos. 


O filme, de Joiner, aparece como uma conjunção de dois fios narrativos separados. Começa como a história que ele mergulhou ao tocar em elementos-chave no Reino Unido: o Relatório Wolfenden, de 1957, a Frente de Libertação Gay, a primeira marcha do Orgulho Gay em Londres(1972), a reação contra a legislação anti-gay na Seção 28,da Lei do Governo Local, de 1988, de Margareth Thatcher.


O segundo fio é a ênfase do filme na marcha do Orgulho de Londres de 2016, após o que ele se amplia para refletir o cenário atual e o massacre da boate Pulse, em Orlando. A crítica de que as Paradas do Orgulho LGBTQIA+, outrora políticas, se tornaram mercado não é ignorada, assim como são reconhecidas as desvantagens em períodos anteriores.


O que a mistura do filme traz e o que dá a Are You Proud?, seu caráter distintivo é sua ênfase na medida em que o pessoal é político. Essas críticas ao fato de o Pride se tornar muito comercializado encorajam a sensação de que o aspecto político da história gay na Inglaterra desapareceu ao longo dos anos.  O filme ousadamente inclui um porta-voz do Orgulho Negro que sugere que o movimento LGBT tem sido muitas vezes um movimento branco onde as pessoas negras são marginalizadas.


quarta-feira, 9 de março de 2022

Rebel Dykes(Reino Unido, 2021)



Nos minutos de abertura deste poderoso documentário, ouvimos uma voz que diz ‘nós éramos jovens, da classe trabalhadora e pobres: éramos Dykes, NÃO lésbicas’. É uma afirmação de fato, mas há uma ligeira vantagem nisso que tomamos como um aviso para não interpretar mal quem esse grupo de mulheres queer realmente era.

O filme, que mistura técnicas de animação, imagens de arquivos e depoimentos atuais, começa no início dos anos 1980, quando um grupo de mulheres montou um acampamento fora da Base Militar da RAF, em Greenham Common, no Reino Unido.

Elas estavam lá para protestar contra o fato de que o governo estava permitindo que as Forças Armadas dos EUA armazenassem mísseis nucleares. O Acampamento atraiu manchetes em todo o mundo e acabou durando 19 anos. No entanto, uma das participantes observou que houve um ponto em que a ênfase estava na exploração da sexualidade que o protesto real


O que politizou mais as lésbicas (e de fato toda a comunidade LGBTQIA+) aconteceu mais tarde naquela década, quando Margareth Thatcher introduziu a Cláusula 28 no Parlamento. Era uma lei desagradável que proibia a “promoção da homossexualidade” pelas autoridades locais. Por um lado, criou uma atmosfera de medo pela segurança de qualquer pessoa gay na rua, mas também coincidiu com o empoderamento de jovens mulheres gays que iniciaram todo um movimento de ocupação na área decadente de Brixton.


Elas se identificavam como 'sapatões ferozes' enquanto tentavam obter as mesmas instalações e bares que os gays tinham assumido como seu direito até então. Elas vieram do mundo do punk e das escolas de arte e a última coisa que elas queriam fazer era recriar os espaços LGBTQIA+  discretos e semifechados como o mais antigo e único bar lésbico de The Gateway London.


Um grupo queria criar seu próprio espaço onde pudessem não apenas celebrar sua sexualidade, mas também experimentar e explorar fetiches S&M. O resultado foi o “Chain Reaction”, um evento semanal realizado no bar gay Market Tavern, geralmente apenas para mulheres, com suas janelas escurecidas sediando lutas de lama, banhos de óleo e até atos sexuais ao vivo.


Enquanto as participantes olham para trás agora revivendo suas memórias, seus rostos se iluminam mostrando nostalgia. No entanto, seu sucesso na época também trouxe oposição e logo o bar foi atacado por lésbicas que se identificaram como feministas radicais que condenavam toda a atividade sexual. Elas se autodenominavam Mulheres Contra a Violência Contra as Mulheres (WAVAW) e era óbvio que elas nunca seriam capazes de admitir que as ‘rebel dykes’’ tinham o direito de se divertir dessa maneira.


Parabéns aos cineastas Harri Shanahan, Sian A. Williams e Siobhan Fahey por fazerem este registro fascinante. Nossa história queer, e sua complexidade política, precisa ser contada de todos os ângulos, para que possamos lembrar da jornada que outros, e no caso outras, fizeram em nosso nome.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Indianara(Brasil, 2019)


O documentário, de Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel, fala de um período obscuro na política do Brasil, entre o governo de Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, por meio do retrato da ativista trans, Indianara Siqueira.

Ela é a fundadora da Casa Nem, um centro de acolhimento para travestis, que ela define como uma espécie de “quilombo urbano”, onde cada hóspede contribui para o sustento da comunidade. O quilombo é uma forma de convivência que remonta à época em que escravos fugidos tentavam se esconder, formando pequenas comunidades no campo. Da mesma forma funciona a Casa Nem, protegendo pessoas marginalizadas das inúmeras agressões sofridas.


Aqui quem está em dificuldade encontra conforto, acomodação e produtos básicos que a Indianara disponibiliza, desde que todos contribuam com a limpeza e tudo o que precisa ser feito para manter a casa funcionando.


O filme por meio das imagens, seja de Indianara na Marcha das Vadias ou gritando ‘Fora Temer’ conta uma história atual de repressão, onde milhares de pessoas lutam e protestam por seus direitos. Conta os encontros na Casa Nem, os momentos coletivos, a intimidade e o cotidiano de algumas dessas pessoas. O relacionamento da protagonista com o marido também é bastante explorado, mostrando que pessoas trans podem ser, sim, felizes no amor.


Não se trata de uma biografia, mas sim de um retrato de Indianara e da condição social de uma comunidade excluída pela sociedade que luta contra a intolerância no contexto do Brasil de hoje. Há um acontecimento em particular que impacta o filme, atordoa Indianara e o resto do seu povo: Marielle Franco, que havia aparecido antes defendendo as pessoas trans, é assassinada.


O resultado das eleições de 2018, e o assassinato de Marielle, que para a Casa Nem, e para o país, foi uma grande perda, um golpe severo que, junto com a turbulência política, põe à prova a integridade da comunidade LGBTQIA+, é o início de uma mudança importante, da qual o filme nos faz participar, não tanto pelos acontecimentos, mas pelos rostos dos envolvidos.



quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

12 FILMES ESSENCIAIS SOBRE HIV/AIDS

1º de Dezembro é o Dia Mundial de Combate à AIDS, uma data voltada para que o mundo una forças para a conscientização sobre o HIV. A data declarada pela OMS, desde 1988, trabalha para reforçar a informação acerca de formas de prevenção, que hoje vão além do bom e velho preservativo. 40 anos já se passaram desde o início da epidemia, décadas  muito difíceis foram enfrentadas, contabilizando milhões de mortes e criando mitos acerca da doença, mas os avanços científicos vieram e hoje existe a chamada "cura medicamentosa". Embora a realidade atual, permita conviver naturalmente com a doença, com o Brasil sendo referência mundial no tratamento, é importante estar atento a todas as maneiras de cuidado. Os estigmas sobre a patologia seguem até hoje em nossa sociedade, e a arte e o cinema estão aí para ajudar a quebrá-los. Para celebrar a data, separamos 12 filmes essenciais sobre o tema:



Michael e Robert são um casal prestes a se separar na Nova Iorque dos anos 80. O motivo para o término do relacionamento é que Robert decidiu se mudar para o Quênia, onde trabalhará durante dois anos. Nos momentos que antecedem sua solidão, Michael precisará encarar as reais razões para a mudança de Robert e também a descoberta de que Nick, um ex-namorado seu, interpretado por Steve Buscemi, é portador do HIV.


Rodado por Gregg Araki, durante o movimento new queer cinema, Viver até o Fim é considerado o Thelma & Louise gay. Luke (Mike Dytri) é um cara imprudente e inquieto e Jon (Craig Gilmore)é um crítico de cinema relativamente tímido e pessimista. Ambos são gays e soropositivos. Depois de um encontro nada convencional, e depois de Luke matar um policial homofóbico, eles partem numa viagem onde o lema é "F**a-se tudo. Através dessa fuga, em forma de road movie, o diretor mostra a negação que muitos pacientes enfrentam ao descobrirem o diagnóstico de sua sorologia.


Matthew McConaughey emagreceu para  ganhar o Oscar pelo papel em Clube de Compras Dallas. No início da epidemia da AIDS, nos anos 1980, quando a doença era considerada sinônimo de homossexualidade, Ron, um heterossexual texano adquiriu o vírus e passou a ter que conviver com essa nova realidade. Questionando a doença, o personagem começa a sentir os primeiros sintomas e é amparado pela transexual Rayon, personagem de Jared Leto, também ganhador do Oscar de Coadjuvante. Ele assim começa a desconstruir toda a imagem que tinha da comunidade LGBTQIA+, e inicia um negócio clandestino para adquirir medicamentos e salvar vidas.


Andrew Beckett (Tom Hanks) é um promissor advogado que trabalha para um tradicional escritório da Filadélfia. Após descobrirem que ele é portador do HIV, Andrew é demitido da empresa. Ele contrata os serviços de Joe Miller (Denzel Washington), um advogado negro que é homofóbico. Durante o julgamento, este homem é forçado a encarar seus próprios medos e preconceitos. Apesar de ter sido o primeiro filme a levar o tema para o mainstream, Filadélfia, não traz uma mensagem positiva acerca da doença. Por sua atuação, Tom Hanks ganhou seu primeiro Oscar.


Em 1989, ano que o longa de Norman René foi realizado, o rastro deixado pela AIDS era devastador. Abordando um tema tão pesado, como a trajetória da epidemia ao longo dos anos 1980, de forma leve, Meu Querido Companheiro recebeu o Prêmio do Público no Festival de Sundance, além da Indicação ao Oscar e o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante para Bruce Davison, que brilha no papel de David.



O longa de André Canto, apresenta a trajetória do HIV/AIDS, com foco no Brasil, por meio de entrevistas com médicos, ativistas e pacientes, além de farto material de arquivo. Do pavor inicial às campanhas de conscientização, passando pelo estigma imposto às pessoas vivendo com HIV, e como a sociedade encarou essa epidemia em sua fase mortífera ao longo de mais de décadas. Educativo, o filme explica a evolução do tratamento para a doença, e mostra que hoje os remédios tornam os pacientes completamente indetectáveis e aptos para uma vida normal.


A adaptação da peça homônima de Larry Kramer, por Ryan Murphy, para a HBO começa em 1981. Uma doença misteriosa se alastra pelos Estados Unidos, com alto grau de mortalidade: cerca de 50% dos infectados acabam falecendo. Como a imensa maioria é homossexual, ela logo é apelidada de "câncer gay" e, por preconceito, não recebe a devida atenção do governo norte-americano. Decidido a fazer com que as pessoas tomem conhecido sobre a epidemia causada pela AIDS, o escritor Ned Weeks (Mark Ruffalo) decide ir aos diversos veículos de comunicação para falar sobre o tema. Entretanto, a raiva contida em suas declarações assustam até mesmo seus colegas na organização não-governamental que presta auxílio aos infectados. Ao seu lado, Ned conta apenas com o apoio da médica Emma Brokner (Julia Roberts), que também está alarmada com a gravidade da situação.


Considerado o primeiro longa-metragem de ficção a abordar o tema, o minimalista Buddies trouxe um olhar realista e ao mesmo tempo sensível para o HIV. O diretor Arthur Bressan morreu de complicações resultantes da AIDS dois anos após o lançamento do filme. Buddies acompanha um homossexual em Nova Iorque que está numa relação monogâmica e se torna “cuidador” ou amigo voluntário de outro homossexual morrendo. Daí, surge uma bela amizade, com mudanças de paradigmas e uma incrível mensagem de positividade no pico da doença.


O filme segue um amoroso casal gay aparentemente inocente, cuja existência, totalmente idealista, é interrompida quando eles são presos, severamente humilhados, torturados e mortos. Além da história, se apresentam imagens não-lineares da iconografia religiosa - a Madonna, Jesus e Judas. Toda a composição visual tem como objetivo provocar reflexões sobre a secular perseguição aos homossexuais durante o ápice da epidemia da AIDS. O diretor Derek Jarman, que convivia com o HIV, sabia transformar sua sorologia em uma arte impactante. No filme há uma impressionante cena, onde o casal é espancado por um grupo de Papais Noel.


O documentário, de David France, conta a história dos jovens corajosos que reverteram a maré de uma epidemia, exigindo a atenção de uma nação com medo e não deixando a AIDS se tornar uma sentença de morte. O ACT UP, um grupo improvável de ativistas resistiu à opressão e, sem formação científica, infiltrou agências governamentais e da indústria farmacêutica, ajudando a identificar novos medicamentos e tratamentos promissores, disponibilizando-os nas drogarias em tempo recorde. No processo, eles salvaram suas próprias vidas e terminaram os dias mais sombrios de uma verdadeira praga, enquanto praticamente esvaziavam as enfermarias de HIV dos hospitais norte-americanos.



O diretor Robin Campillo mergulha fundo no mundo da militância para voltar à França, no início dos anos 1990. O grupo ativista ACT UP está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação à AIDS, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde delicado. Vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes.



Jacques (Pierre Deladonchamps) é um escritor e dramaturgo que vive em Paris. Arthur (Vincent Lacoste) é um jovem estudando em Rennes. Eles se encontram na esquina entre um teatro e cinema. Eles vivem uma história em um período complicado dos anos 90, onde o amor paira sobre a morte e a ternura luta contra o desespero, porém, a vida continua contra todas as probabilidades. O longa, de Christophe Honoré, além das inúmeras referências à arte e a cultura POP, traz uma abordagem bastante positiva sobre conviver com HIV ao retratar um casal sorodiscordante.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Como Sobreviver a uma Praga(How to Survive a Plague, EUA, 2012)



O relato meticulosamente detalhado de David France é como um grupo furioso e ferozmente comprometido de pessoas altruístas e destemidas, que ao enfrentar a indústria farmacêutica e as instituições governamentais, eles fizeram uma diferença real e salvaram incontáveis ​​vidas.

Esta é, obviamente, a história da epidemia de AIDS que trouxe a formação da organização AIDS Coalition to Unleash Power, mais conhecida como ACT UP, um grupo de ativistas gays cujo sucesso contra tantas probabilidades nunca deve ser subestimado, pois gerou resultados muito relevantes.

 

O documentário usa um tesouro de imagens de arquivo (filmadas por cerca de 33 pessoas diferentes) que incluiu muitas das primeiras reuniões do ACT UP e suas grandes demonstrações públicas quando provaram o quão hábeis eram em eventos de alto perfil para atrair a atenção da mídia. O filme mostra, por exemplo, o icônico protesto, realizado durante uma missa.

Seu logotipo Silêncio = Morte falava muito e enquanto eles lutavam contra a hostilidade aberta dos políticos e a indiferença das agências governamentais como o F.D.A., você podia sentir sua raiva crescendo, especialmente porque o número de mortos continuava subindo astronomicamente.

O que surge não é apenas a realidade de que se ressentia da presença do ACT UP, que promovia ‘funerais políticos’, mas o fato de que o governo e a sociedade estavam tão visivelmente desconfortáveis ​​com um grupo minoritário fazendo suas demandas de forma tão agressiva e com indignação tão óbvia e totalmente indispostos a recuar. 

Isso foi eficaz para aumentar a consciência sobre uma calamidade tão estigmatizada que o presidente Ronald Reagan quase ignorava, George H.W. Bush observava como 'comportamental' e Bill Clinton, em campanha eleitoral, mal estava na vanguarda da causa e parecia assustado quando era alvo de manifestações.


Mas o ativismo da AIDS não se limitou a atos políticos. O filme destaca cientistas, pesquisadores e um químico aposentado, nem todos convivendo com HIV, que fez um trabalho inestimável ao chamar a atenção para um protocolo de tratamento e medicamentos promissores em todo o mundo. Surpreendentemente, a ACT UP conquistou assentos em conselhos de supervisão da crise, como observou um funcionário federal: "Eles sabem mais do que nós".


Hoje sabemos que houve um grande manejo incorreto da epidemia naquela época, com drogas ineficazes, caras e difíceis de encontrar e absoluta ignorância no tratamento de pessoas com HIV/AIDS, e sem a defesa brutal do ACT UP, a situação talvez fosse ainda pior.

Como sobreviver a uma Praga é um filme devastadoramente triste, pois faz reviver a dor avassaladora de perder tantos amigos e te entorpece de choque. Em 1996, após inúmeras tentativas frustradas com o AZT, uma combinação de três remédios foi uma bênção para aqueles que ainda estavam vivos, mas infelizmente, tarde demais para os milhões que já haviam partido.

 

Não é fácil enfrentar essa parte dolorosa do passado recente, mas é uma causa necessária e obrigatória, até porque hoje conviver com o HIV é uma realidade completamente plausível. Muitos dos sobreviventes, como Larry Kramer, que lançou a peça The Normal Heart, mais tarde adaptada para o cinema por Ryan Murphy, seguem a batalha até hoje. E o filme é também uma lição notável sobre o poder de falar e lutar pelo que acreditamos.



domingo, 23 de maio de 2021

Lemebel(Chile, 2019)

Quem foi Pedro Lemebel? O documentário, de Joanna Reposi Garibaldi, apresenta o escritor, performer, artista visual e pioneiro do movimento LGBTQIA+ no Chile, que enfrentou, com clamor, o regime do ditador, Augusto Pinochet.

Há o ativismo e a arte: os dois se entrelaçam e, na maioria das vezes, é difícil dizer onde está a fronteira. Fundador do coletivo Éguas do Apocalipse, com pensamentos muito a frente do seu tempo o militante e seu grupo, sempre se fizeram presentes em grandes eventos demarcando um território de resistência.


O longa é suficiente para extrair temas de uma vida. Como a importância das palavras, a começar pelo nome Lemebel, que ele mesmo escolheu. Porque os sobrenomes espanhóis são masculinos e Lemebel, foi um nome inventado por sua avó quando fugia.


As palavras são importantes. É por isso que ele não gosta de 'gay', que ele vê como tendo pouco em comum com o homossexual da classe trabalhadora. Palavras e linguagem são importantes quando ditas no contexto adequado, quando vai a um programa de TV, e dá uma lista imensa de termos para designar homossexual, Lemebel arranca, com simpatia, risos da plateia.



A visão de Lemebel é revolucionária. Começando como um hippie inspirado no amor, ele entendeu desde cedo a necessidade de revidar. Porque quando começou seu trabalho, sob a ditadura, gays eram assassinados abertamente nas ruas. Quando ganhou voz ele finalmente pode alcançar as massas, lançando obras literárias como a recentemente adaptada Tenho Medo Toureiro(2020), e palestrando em Harvard, por exemplo.


Em sua campanha no evento Stonewall, nos Estados Unidos, ele, repetidamente, usa seu corpo para fazer um protesto, com uma emblemática auréola feita de seringas. Existe uma energia nervosa no artista que não pode falar, afirma, sem música de fundo. Surge então Corazón de Poeta, da cantora Jeanette, famosa pelo tema de Cria Cuervos(1976), Porque te Vas.


Como uma grande homenagem, o documentário mostra obras de Lemebel sendo projetadas em prédios de Santiago, além de uma última performance, o ato final do corpo político, o corpo rasgado, rolando por uma escadaria em chamas.


Não há uma narrativa convencional, de começo e fim. Ainda assim, há uma espécie de linha do tempo, dos diferentes períodos que vivenciou até suas últimas apresentações, quando ele está claramente doente. Tudo coberto por imagens realizadas apenas duas semanas antes de sua morte por câncer de laringe, em janeiro de 2015. O filme, que estreou no Festival de Berlim, em 2019, ganhou o Teddy, de Melhor Documentário.



sábado, 22 de maio de 2021

Peter Tatchell: Do Ódio ao Amor(Hating Peter Tatchell, Austrália, 2021)

Apontado como o Inimigo Nº 1 da Grã Bretanha, fascista gay e terrorista homossexual, Peter Tatchell é um militante fervoroso pelos direitos LGBTQIA+, que com suas estratégias, muitas vezes agressivas, acabou chamando a atenção para o bem e para o mal.

O documentário de Christopher Amos, produzido por Elton John, é construído em cima de uma entrevista do próprio Tatchell à Ian McKellen, onde relembra 50 anos de ativismo, de um jovem que deixou a conservadora Austrália para travar uma luta heroica no Reino Unido.


Quando a batalha de Stonewall aconteceu em Nova York, acordou o mundo para a questão dos direitos dos homossexuais. Na Inglaterra, Peter Tatchell foi um dos responsáveis pela Frente da Libertação Gay, que em 1972, promoveu a Primeira Parada do Orgulho LGBTQIA+ em Londres.


Com a necessidade de criar leis que garantissem acima de tudo a segurança da população LGBTQIA+, Tatchell tentou entrar para a vida política se candidatando a deputado. Ridicularizado e ameaçado por sua homossexualidade, o candidato sofreu uma derrota esmagadora, combustível para mais energia.


A década de 1980 foi assombrada pela epidemia da AIDS e o crescimento da homofobia chegou até o governo de Margareth Thatcher, que fazia discursos conservadores e anti-homossexuais. Tatchell e sua equipe tiveram que trabalhar dobrado para conscientizar e garantir direitos, em um dos períodos mais obscuros da história LGBTQIA+.



Os depoimentos de Stephen Fry ajudam a reconstruir atos que marcaram época. Quando fundou a afrontosa OutRage! o ativista pretendia contestar e até mesmo tirar do armário figuras importantes que ele julgava hipócritas. Além disso, há toda uma proibição de qualquer tipo de material homossexual em escolas, o que ele contesta.

Uma de suas ações mais emblemáticas aconteceu durante a Missa de Páscoa, na Catedral de Londres, conduzida pelo Bispo George Carey. Ele e diversos ativistas invadiram o púlpito e com cartazes e gritos de ordem chamaram a atenção da imprensa. Em seu depoimento o próprio religioso, chocado na época, traça hoje um paralelo entre o ativista e Jesus Cristo.


Militante global, Peter Tatchell protestou contra o ex-presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, onde acabou sendo espancado e mais uma vez voltando os holofotes para si. Na Rússia, ele foi questionar a FIFA, por escolher um país homofóbico como sede de uma Copa, e protestar sobre as mortes na Chechênia.


Com um senso enorme de amor, liberdade, igualdade e justiça ,Peter Tatchell é um caso raro de militância. Sua paixão e devoção em defender as causas LGBTQIA+ e os direitos humanos deixaram sequelas, mas ele faz questão de enfatizar que a luta não irá parar. Documentário imperdível disponível na Netflix!