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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Ainda Estou Aqui (Brasil/França, 2024)


Por Marco Gal

Walter Salles comove com tom contido em “Ainda estou aqui”, drama de uma família que recorre à dignidade na luta contra os abusos da polícia na ditadura militar.


“Ainda estou aqui” é baseado no livro de mesmo nome de Marcelo Rubens Paiva. Uma biografia sobre sua infância no Rio de Janeiro no início dos anos 70, em pleno endurecimento da ditadura militar. Um dia, seus pais Rubens (Selton Mello) e Eunice (Fernanda Torres) recebem uma visita inesperada que transformará a vida da família em definitivo.


O que mais se destaca em “Ainda estou aqui” é o tom contido da direção de Walter Salles, que jamais deixa a tragédia dominar no registro das performances ou do que acontece em cena. Essa escolha representa fielmente a natureza daqueles personagens. Por exemplo, quando Eunice sofre truculência da polícia e mesmo assim oferece comida a eles. Quando seu algoz é quem deveria lhe proteger, sua única arma é a dignidade. Há várias sequências poderosas, como o momento que Eunice observa outras famílias se divertindo em uma sorveteria. O olhar de Fernanda Torres é arrebatador.


O elenco, aliás, é incrível, contando com os maiores nomes da nova geração do cinema brasileiro como Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Camila Márdila, Dan Stulbach e Luis Bertazzo, em uma atuação memorável. Fernanda Montenegro faz uma participação especial.


Premiado com “Melhor Roteiro” no Festival de Veneza, “Ainda estou aqui” tem roteiro de Heitor Lorega e Murilo Hauser (que já adaptou outro romance em roteiro, “A vida invisível”). Os dois trabalharam no texto durante 7 anos e todos esses anos de dedicação ao material está refletido na boa estruturação da narrativa que, junto da edição de Affonso Gonçalves (editor de “Carol” e “Democracia em vertigem”), compõem um ritmo na duração do filme que não pesa ao espectador.


Por fim, “Ainda estou aqui” emociona como um retrato sensível de uma família, atravessando décadas. O filme estreia nos cinemas dia 7 de novembro e está bastante cotado para o Oscar principalmente nas categorias de Filme Internacional, Roteiro Adaptado e Atriz. Vamos torcer!





quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Paraíso Perdido(Brasil, 2018)

Paraíso Perdido, de Monique Gardenberg,  acompanha a vida de uma família que possui e trabalha na boate que dá nome ao filme. Também conhecemos outros artistas ーuma espécie de família de acolhimento e somos apresentados à cena através de Odair(Lee Taylor), um policial que recebe o panfleto do clube por um motociclista em alta velocidade, interpretado por Seu Jorge.

Depois que ele protege um dos artistas, Ímã(Jaloo), de ser espancado fora do clube, ele é contratado pelo avô deles, José(Erasmo Carlos), para ser seu guarda-costas. Odair serve de porta de entrada para o espectador, e ao lado dele descobrimos o clube, a família e seus segredos. Quanto mais tempo ele passa lá, mais aprendemos sobre esse clã distorcido tocado pela tragédia.


Paraíso Perdido tem uma identidade distinta e requintada. O clube parece estar quase preso em um loop temporal, as luzes de neon dentro criam uma imagem visual impressionante enquanto os artistas cantam trágicas melodias de outrora. As luzes do palco, por vezes, irrompiam em cores diferentes, evocando os sentimentos dos intérpretes: uma luz vermelha para a paixão; azul para contemplação; rosa para o flerte.


A trilha uma mistura de brega, e clássicos  pop e rock dos anos 60, 70 e 80, define o clima perfeitamente. Letras e acordes de guitarra são profundamente sedutoras e emotivas. A música entra e sai flutuando em momentos cruciais.


Paraíso Perdido é uma espécie de utopia queer moderna . No entanto, Ímã é agredido duas vezes fora do clube, lembrando-nos do mundo perigoso que envolve este Brasil, o país que ainda mais mata LGBTs.


Ímã começa a se relacionar com um garoto, Pedro(Humberto Carrão), que se apaixonou pelo que viu no palco. Fora dos holofotes vem sua própria luta. Apesar do espaço aberto e receptivo do clube, Pedro, como tantos homens enrustidos, carrega sua própria bagagem interna e preconceito.

De maneira refrescante, Ímã parece não se incomodar com a aversão de Pedro a eles e, em vez disso, a própria luta de Pedro se torna o ponto de maior tensão. Logo, Pedro se controla e começa a se deixar aproximar de Ímã. Ele os ajuda com a tradução de uma música para que possam tocá-la no clube: comovente para um garoto apaixonado pela persona de palco de alguém, a música é You’re So Vain, de Carly Simon.


A relação de Odair e sua mãe, interpretada por Malu Galli, e o amor e apreço que ela tem por ele penetra por trás de seus olhos através da tela. Embora ela não possa sair de casa, ela aprende sobre o clube e as pessoas por trás dele através do filho.


O desenvolvimento da trama progride lentamente; o tópico principal é trazido desde os primeiros minutos, mas só podemos aprender mais detalhes gradualmente. Ainda assim, a cena de abertura puxa para o mistério imediatamente.


A atmosfera criada no cabaré, simultaneamente presa no tempo e sempre em movimento, é polida: desde a trilha sonora evocativa e habilmente colocada até a fotografia impressionante e imersiva, para um mundo de tragédia, de dor, mas também de amor, de conexão e de alegria. Neste Paraíso Perdido, a paixão, a emoção e a verdade transparecem.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

As Boas Maneiras (Brasil/França, 2017)

As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, é uma mistura fascinante de terror, fantasia e musical que vai do humor ao comovente, do romântico ao trágico, tudo isso mantendo o senso de conto de fadas.

Na trama, uma mulher chamada Clara (Isabél Zuaa), precisando muito de dinheiro, arruma um emprego como babá da futura mãe solteira Ana, Marjorie Estiano em uma grande atuação. Clara é pobre, lésbica, negra - e Ana - uma rica socialite heterossexual branca.

Ambas parecem ter pouco em comum, mas as duas compartilham uma solidão que as aproxima. O vínculo delas é posto à prova, no entanto, quando Ana começa a exibir um comportamento estranho a cada lua cheia, que vai muito além dos desejos habituais de gravidez.


As Boas Maneiras é carregado de charme e coração surpreendentes. O filme tem o brilho de uma grande produção completa, com excelentes efeitos práticos de CGI, e cinematografia exuberante, de Rui Poças, que pinta São Paulo como um reino urbano mágico enluarado. 



O roteiro, escrito pelos realizadores, nunca menciona abertamente a questão racial, mas a disparidade entre as duas mulheres em As Boas Maneiras fala por si. Da mesma forma, sutis são os comentários e metáforas do filme sobre classe, orientação sexual e gênero.

Porém tudo é maravilhosamente matizado, assim como os próprios personagens são matizados, suas camadas vão se desfazendo conforme a história se desenrola para revelar uma profundidade inesperada em uma trama, onde não vale revelar detalhes.


Ao lado de O Animal Cordial(2017), o filme é um dos projetos mais impressionantes e audaciosos dos últimos anos, o que demonstra o alto nível do cinema nacional atual. Com algumas curvas muito bem trabalhadas  passamos por diferentes gêneros cinematográficos com situações próximas de ficção científica e muito suspense.


O projeto trabalha em diálogos dramáticos, situações românticas e momentos de humor (há muita ironia no filme) graças ao texto original e às interpretações, principalmente das duas atrizes. O surpreendente do filme é que não permanece uma simples história de roteiro e interpretações, mas ele é muito bem trabalhado e muito detalhado nos aspectos artísticos, como a recriação dos cenários, a direção de arte, a obra dos técnicos, maquiadores e figurinistas.