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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

The Velvet Underground(EUA, 2021)

Todd Haynes, que já tirou o chapéu para o The Velvet Underground, em Velvet Goldmine(1998), conta a história da banda de maneiras que evitam o óbvio enquanto a investigam profundamente. Mas o que é mais estimulante no filme é como ele ancora a experimentação da banda na cena artística de Nova York, dos anos 1950 e 1960.

A divisão contínua do quadro de Haynes funciona tanto como uma homenagem à Warhol quanto como um meio de amontoar muitas coisas em 110 minutos. Haynes se baseia em Warhol tanto para o material visual quanto para inspiração estética. 


Desde o início, Haynes tenta fazer uma obra de arte que não apenas narra a história do The Velvet Underground, mas reflete seu espírito criativo. As entrevistas ocuparão dois terços do quadro, deixando a parte esquerda preta, só porque isso leva a uma constante reorientação como espectador, não muito diferente do que a banda estava tentando alcançar através de sua música para os ouvintes.


Haynes faz escolhas brilhantes ao longo de The Velvet Underground, desde as imagens de arquivo que ele escolhe para acompanhar a história de uma banda muito incomum, até sua ênfase no processo e na colaboração. O filme realmente começa quando John Cale e Reed conhecem Andy Warhol, o que, claro, mudou a história da música. Torna-se um trabalho sobre o que emerge das comunidades artísticas e como esse senso de apoio e colaboração pode produzir o tipo de gênio que ondula ao longo dos anos. É um filme inteligente e criativo. 

O longa parece adotar deliberadamente a estrutura de um álbum de vinil de meados do século XX, o tipo com músicas organizadas em faixas que devem ser experimentadas de maneira linear, primeiro Lado A e depois Lado B, direto, sem parar. A cada poucos minutos, a edição muda a ênfase para que você não esteja apenas trocando de trilhas musicais, revisitando o repertório da banda, mas de faixas intelectuais.


Sob a supervisão de Haynes, os montadores Affonso Gonçalves e Adam Kurnitz deixam o material fluir e mudar de direção. O cantor e compositor Jonathan Richman disseca as escolhas musicais da banda, imitando os vocais de Reed misturando o entusiasmo de um fã com o rigor de um músico em atividade. O filme contrasta hilariamente a versão ácida, e de contracultura, da sombria de Nova York dos anos 1960.

Haynes e o diretor de fotografia Ed Lachman filmam entrevistas atuais à maneira dos filmes "close-up" de Warhol, com iluminação uniforme e fundo de cor chapado, em uma imagem vintage. O estilo parece clássico e fresco, canalizando sutilmente as filmagens feitas por Warhol e outros cineastas adjacentes à Factory na época, algumas das quais também são apresentadas aqui.


Este é um filme deslumbrante. É um espetáculo, bem como um relato de um tempo e lugar. Faz você pensar sobre o que é um documentário e o que um filme pode fazer, resgatar um legado, da maneia que você quer e precisa.



sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Velvet Goldmine(Reino Unido, 1998)


A juventude efervescente dos anos 1970. Londres. Glam Rock. Tais elementos marcariam um dos trabalhos mais emblemáticos e audaciosos de Todd Haynes até hoje, que vinha do new queer cinema com Veneno(1992). Velvet Goldmine não é só um filme, mas um manifesto estético e artístico.

Por mais que se vejam semelhanças no protagonista Brian Slade, interpretado por Jonathan Rhys Meyers, com David Bowie, inclusive pela trajetória musical e visual e Curt Wild, de Ewan McGregor, com Iggy Pop, Todd Haynes garante que essa é uma história fictícia roteirizada em parceria com James Lyons.

Logo na primeira cena vemos um disco voador sobrevoar Londres, para depois Brian Slade como o alterego Maxwell Demon levar um tiro no palco, reluzente, brilhante e opulente. Passamos, então, a acompanhar a sua vida com o início do musical Hot One, onde o figurino, de Sandy Powell, tem uma pegada vitoriana e a estética é de videoclipe.


Com uma trilha fenomenal com clássicos de T-Rex, Lou Reed, Roxxy Music e The Stooges o filme têm o clima glam desejado, e é um desbunde visual. Quando vamos conhecendo melhor o personagem Brian, sua relação com o papel de Toni Collette, e sua carreira como cantor folk vamos sendo envolvidos pelo protagonista até sua relação explosiva com Curt Wild.

Christian Bale interpreta o jornalista Arthur Stuart, incumbido de escrever uma matéria sobre um novo fenômeno conservador, Tommy Stone, enquanto resgata o paradeiro de Brian Slade, que forjou a própria morte no palco e depois nunca mais se ouviu falar.


O filme destaca a androginia, a cena fluída, tanto que a banda que estava se lançando na época nesse estilo, o Placebo, aparece, canta 20th Century Boy e ainda tem algumas palavras ditas pelo seu vocalista, Brian Molko.

Arthur foi fã de Slade na infância, e isso caracteriza a consciência de sua homossexualidade e a ambiguidade sexual do movimento. Saltos, perucas e brilho eram artigos básicos para essas criaturas cintilarem na tela.

A estética gay. O espírito de liberdade. As Orgias. A música. As estupendas atuações. A direção cuidadosa. Tudo isso faz com que Velvet Goldmine seja um filme único, atemporal, emblemático e que ainda nos presenteia com um lindo número de Satellite of Love, de Lou Reed, simbolizando o encontro de Curt Wild e Brian Slade.