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quinta-feira, 6 de maio de 2021

Lírios(Lilies, Canadá, 1996)

 

Lírios, uma fantasia de vingança extravagantemente polida do cineasta canadense John Greyson, do inventivo musical Zero Patience(1993), eleva o nível de protesto contra a igreja em um grito estridente. O drama de época é ambientado em uma prisão masculina de Quebec, em 1952, sugerindo Jean Genet, seus ambientes carcerários e suas elaboradas variações do formato de peça dentro da peça.

O bispo Bilodeau (Marcel Sabourin), que foi chamado para ouvir a confissão do prisioneiro Simon Doucet(Aubert Pallascio), encontra-se refém na capela, que foi tomada pelo contingente homossexual da instituição. Contra sua vontade, ele é forçado a assistir a uma peça, encenada pelos presos, que recria uma tragédia de 40 anos atrás quando era estudante numa escola católica.


A história que eles apresentam conta sobre o amor trágico entre o jovem Simon (Jason Cadieux) e Vallier (Danny Gilmore), dois amantes que começaram a se beijar com muita intensidade para o desconforto das pessoas em um peça sobre o martírio de São Sebastião. À medida que a reconstituição continua, as paredes da prisão derretem e estamos de volta em 1912, com os presos desempenhando todos os papéis, incluindo os femininos.


Adaptado de uma peça de Michel Marc Bouchard, o filme ousa ao apostar no uso de atores travestidos em um drama romântico. O ator negro, Alexander Chapman, interpreta a Lady Rozier, noiva de Simon, com tamanha extravagância que torna completamente crível sua versão de uma diva francesa. O retrato trêmulo e selvagem de Brent Carver, como a mãe aristocrática e louca de Vallier, também é louvável.


A maior parte do filme consiste na peça dentro do filme, apresentada pelos presidiários para Bilodeau e Doucet  Os tons homoeróticos da peça de São Sebastião contribuem para o despertar sexual de Bilodeau, que envolve o amor não correspondido por Simon e um plano maléfico.


Inventivo, metalinguístico, poético e ainda assim cruel, Lírios quebra paradigmas para contar uma história de amor de forma não convencional, intensa e muito eficiente. O filme foi premiado no Montreal World Film Festival, L.A. Outfest, no Austin Gay and Lesbian International Film Festival, além de receber o Genie, Oscar canadense, de Melhor Filme.



segunda-feira, 19 de abril de 2021

Canção de Amor(Un Chant D'Amour, França, 1950)



Canção de Amor
, única incursão do escritor e dramaturgo Jean Genet no cinema, é um estudo focado nos mesmos temas presentes em sua obra escrita. Entre as apresentações explícitas de masturbação, homossexualidade, violência, vigilância e fantasia, estão também as imagens temáticas persistentes de reflexão, comunicação e engano.

A história central gira em torno de dois prisioneiros vizinhos, um maduro e solitário, o outro jovem e narcisista, e o policial ciumento que abre caminho entre eles. Os dois prisioneiros estão separados pela espessa parede de pedra, mas existem alguns meios de comunicação que são as imagens mais poderosas apresentadas no filme.

O ramo de flores que transita pela grade é uma imagem repetida ao longo do filme, de 26 minutos. O guarda, patrulhando o exterior da prisão, vê essa tentativa de união e se inspira no ato de percorrer as celas internas e espionar os presos. 


O segundo ato de comunicação no filme é o canudo transportando a fumaça pela parede. O cigarro tem um papel interessante no mundo dos prisioneiros porque, embora sua função seja principalmente de confiança, sua imagem é de penetração e ejaculação, e seu conteúdo é simplesmente um reflexo.


A parede que separa os dois prisioneiros ,e o guarda, funcionam como uma analogia da repressão e marginalização homossexual. O próprio filme, por seu conteúdo explicitamente homoerótico foi banido, tendo sido trazido a público muitos anos depois.

O último ato remonta uma fantasia erótica onde o guarda, num momento abusivo, faz um dos prisioneiros colocar a arma na boca simulando sexo oral. O jovem, sozinho em sua cela, sabe que também está ocupando dois sonhos ao mesmo tempo. Este é o seu ato de poder. 


Genet transformou a divisão da prisão em algo como uma mente onde sonhos e fantasias permanecem adormecidos até que algo da realidade os desperte. Canção de Amor apresenta um mundo interior, semelhante a algo da própria consciência, sendo acessado e interagindo com o exterior e apresentando um universo que futuramente seria abordado em obras como Querelle e O Beijo da mulher aranha.

Um dos primeiros filmes explicitamente gays, Canção de Amor é junto aos curtas de Kenetth Anger, como Fireworks(1947), um dos precursores da arte queer e mesmo sem falas, segue até hoje, devido a seu ponto de vista ousado e vanguardista, influenciando gerações de artistas.



quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Veneno(Poison, EUA, 1991)


Veneno, de 1991, marcou a estreia de Todd Haynes, diretor de Velvet Goldmine e Longe do Paraíso, nos longas-metragens. Em sua estreia ele já se inseria no movimento chamado New Queer Cinema, fazendo um filme experimental, criativo, inovador, e com uma estética lúdica ao mesmo tempo que perturbadora.

A exemplo de Rainer W Fassbinder e sua obra prima Querelle, Haynes se inspirou na literatura de Jean Genet para desenvolver três histórias relacionadas entre si. Remetendo ao expressionismo alemão o filme começa com em cenas PB com “Herói” sobre um menino, de 7 anos, que mata o pai, em uma noite de terror, e que depois terá sua verdade desvendada em um falso e famigerado documentário.


Em “Horror”, essa sim toda em PB, temos um cientista que ao tentar inventar uma fórmula relacionada à sexualidade acaba consumindo a substância, no melhor estilo O Médico e o Monstro, e fica extremamente doente. Essa história é uma analogia para a epidemia da AIDS, que naquela época explodia no mundo. Ao transmitir a doença, para a mulher, através de um beijo isso fica bastante evidente.

 

Em “Homo”, a história mais Jean Genet de todas, vemos um homem que se sentia atraído por outros em um reformatório e que agora, vive sua sexualidade junto a outros detentos na prisão. Nesse contexto puramente masculino que temos a cena mais emblemática do filme, com vários homens cuspindo no protagonista, remetendo a um banho de esperma.


Veneno têm um caráter experimental, mas é certamente um ponto de partida para o new queer cinema ao lado de filmes como Paris is Burning e The Watermelon Woman. Em seu debut Todd Haynes realizou uma obra marginal, poética e reflexiva que servia de princípio para a bela carreira construída pelo diretor.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Querelle, um pacto com o Diabo(Querelle, Alemanha, 1982)


Uma explosão de hormônios. Marinheiros. Homens suados. Fetiches Homossexuais.  Assim é Querelle, último filme do gênio alemão Rainer Fassbinder, lançado meses após sua morte por overdose de cocaína em 1982, aos 37 anos.

Baseado na obra de Jean Genet escrita em 1947, o filme possui um clima teatral e claustrofóbico, além de uma atmosfera homoerótica. A belíssima fotografia transmite um eterno pôr do sol destacado por formas fálicas, em torres ou pichações. 

Tão lindo quanto diabólico Querelle é um marinheiro no Porto de Prest que explora sua sexualidade com homens e com a cafetina Lisyane, interpretada brilhantemente por Jeanne Moreau. Enquanto protagoniza cenas tórridas de sexo também desenvolve uma atração pela criminalidade, tornando-se um ladrão e assassino.

Lysiane é uma grande personagem, a cafetina protagoniza diálogos poéticos e existencialistas e também apresenta um belíssimo número burlesco, onde a letra traz a famosa frase de Oscar Wilde "Todo mundo mata aquilo que ama".

Uma narração que fala dos sentimentos e desejos de Querelle e dos demais personagens dão ao filme um clima onírico, como se fosse quase uma alucinação.

O primeiro beijo num homem. Uma viril masculinidade. O desejo de ser penetrado. A descoberta do amor. Querelle é um mistério a ser desvendado, uma personalidade movida por desejos sendo de ter ou receber prazer. É com certeza a obra prima definitiva do Cinema Queer.