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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Years and Years(Reino Unido/EUA, 2019)



Contar a história do século XXI através dos anos. Essa é a premissa ambiciosa de Years and Years, uma das séries mais emocionalmente envolventes já feitas. O primeiro episódio começa em maio de 2019, e as parcelas subsequentes avançam profundamente na década de 2020, o suficiente para revelar que nossa história futura parece menos um arco em direção ao progresso do que um redemoinho de entropia. E embora Emma Thompson roube cenas como uma política nacionalista ambiciosa cuja ousadia e facilidade com os mecanismos da celebridade podem gerar comparações tanto com o britânico Boris Johnson quanto mais claramente com Donald Trump, não é a história dela.

A família Lyons é um grupo relativamente unido que tende para a classe média alta; na ausência de seu pai distante, o irmão mais velho Stephen (Rory Kinnear), um banqueiro, desempenha o papel de patriarca. Outros entre este grupo bem desenhado incluem sua esposa, Celeste (T'Nia Miller), seu irmão gay Daniel (Russell Tovey) e as irmãs Edith (Jessica Hynes) e Rosie (Ruth Madeley); vovó Muriel (Anne Reid), alheia à mudança, fica à margem da história como um lembrete de um passado cada vez menos reconhecível. Na casa ainda há a presença do Signor, uma inteligência artificial. Cada irmão interage com mudanças políticas crescentes de maneiras que seriam, em tempos normais, completamente cotidianas: Daniel trabalha em uma habitação para o governo, Edith é uma ativista de carreira e Rosie, que tem espinha bífida e é mãe solteira, trabalha em uma escola. Stephen parece pensar pouco em política, se é que pensa.


Mas a política tem uma maneira deselegante de se colocar na vanguarda das vidas, pelo menos neste momento e nos momentos que os anos preveem adiante. Daniel, casado e estável, apaixona-se por um refugiado ucraniano que foge de tortura homofóbica; Edith, protestando em uma ilha artificial construída pelos chineses, é pega em um ataque nuclear que ameaça encurtar significativamente sua vida útil. Rosie se vê presa na retórica de Vivienne Rook (Thompson), uma pessoa que vemos nos primeiros quatro episódios apenas como uma figura coberta pela mídia. E Stephen e Celeste enfrentam, primeiro, o desejo de sua filha de se tornar “transumana”, fundindo sua forma física com tecnologia e depois vicissitudes econômicas que destroem suas vidas estáveis ​​e revelam elementos de desconfiança e desprezo em meio aos destroços.

Quase todos os elementos, aqui, são transmitidos com entusiasmo e imaginação; embora Years and Years não seja ficção científica, por exemplo, as particularidades da jovem Bethany (Lydia West) se tornando uma peça de tecnologia viva é arrepiante e flerta direto com o universo de Black Mirror. A política interpretada por Thompson prega a maneira como seus políticos não são gentis, mas são infinitamente atraentes e até engraçados diante das câmeras, tão dispostos a descartar as premissas básicas pelas quais vivemos nossas vidas.

E o roteiro de Russell T. Davies aqui é consistentemente elegante e, melhor, ressonante. A questão-chave de nossos tempos, tão grande que exige ser dividida em várias outras menores, é como o indivíduo deve ou pode reagir a viver em meio a mudanças cada vez mais rápidas.


Years and Years retrata a ameaça do Brexit acelerar o ritmo de isolamento e mudança no Reino Unido; no mundo. Esse processo é ajudado por Rook e pelo caos financeiro global, levando a uma nação quebrada, de pessoas medrosas e desconfiadas lutando para sobreviver e manter os estados de espírito que tinham antes do mundo desabar.

Mas o que a série faz melhor é retratar o que não muda; mesmo após a agressão nuclear e a adoção do nacionalismo de extrema-direita e a aparente queda da Europa, os Lyones ainda se reúnem para aniversários e comemorações. Isso não é para ser caloroso, no entanto, é uma mensagem sobre o poder da família, mesmo em circunstâncias restritas. Os confortos da tradição são tudo o que temos para agarrar à medida que a grande narrativa de nosso tempo se desenrola. 

domingo, 12 de dezembro de 2021

Angels in America(EUA, 2003)

Extravagantemente concebida e gloriosamente realizada, Angels in America não é apenas uma das grandes séries já feitas, é também uma obra de arte transcendente. Adaptado por Tony Kushner de suas próprias peças, vencedoras do Pulitzer, e brilhantemente colocado na tela pelo diretor Mike Nichols, a série é uma obra de alcance e poder inigualáveis, um feito para a eternidade.

Embora o foco esteja em um grupo de gays enfrentando o primeiro ataque da AIDS nos anos 1980, esta é uma história abrangente, cheia de compaixão pelos pontos fortes e fracos que temos em comum. Bonito e profano, íntimo e épico, Angels in America transborda de comédia, drama, violência, sexo e morte, assim como a própria vida.


E que elenco! Meryl Streep e Al Pacino, apresentam desempenhos que rivalizam com os melhores das suas lendárias carreiras. Mas, além disso, você tem uma virada angelical de Emma Thompson e performances surpreendentes de cinco atores então ainda mais jovens: Justin Kirk, Mary-Louise Parker, Jeffrey Wright (um vencedor do Tony para o original), Ben Shenkman e Patrick Wilson. 


Assim como na Broadway, Angels in America se divide em duas partes: Millennium Approaches e Perestroika. A atração gira em torno de dois homens muito diferentes convivendo com HIV.  O personagem quase real é o infame Roy Cohn (Al Pacino), que personifica toda a hipocrisia, ilusão e insensibilidade da resposta oficial à peste. Nada abala a fascinante falta de empatia de Roy: mesmo em seu leito de morte, ele está lutando com seu enfermeiro gay (Jeffrey Wright) e insultando a mulher que ajudou a matar, Ethel Rosenberg (Streep, em um dos três papéis que desempenha).


O outro paciente é o Prior Walter (Justin Kirk), que é visitado por um anjo (Emma Thompson) e abandonado por seu amante cheio de autopiedade, Louis (Shenkman). Louis passa para Joe Pitt (Patrick Wilson), um advogado mórmon cuja homossexualidade enrustida leva sua esposa Harper(Mary Louise Parker) a delírios e traz sua mãe (Streep novamente) para Nova York.


As reviravoltas da trama se multiplicam e os personagens colidem, configurados para um diálogo que é, por sua vez, incrivelmente poético, maravilhosamente espirituoso e terrivelmente direto. Há muita raiva, mas a glória da obra de Kushner, e a razão de não ter datado, é que ultrapassa a raiva em direção à compreensão.

A política, com a falta de sonhos diante de um político, Reagan, que parece distante do povo e nada mais é do que uma figura de Hollywood, é duramente criticada . O aparecimento de anjos entre os personagens convida à magia. Funcionam como consciências que se fazem ver quando não há mais vestígios de razão e só há espaço para transbordamento emocional.


A série brinca muito com o absurdo. Mundos paralelos estão constantemente sendo erguidos, a partir das alucinações de alguns personagens Harpert, a esposa de Joe, toma três Valiums por dia para voar o máximo possível e se afastar de sua realidade.


A minissérie, em 6 capítulos, de 1h, ganhou cinco Globos de Ouro e onze Emmys. Angels in America tem sequências endurecedoras, difíceis de digerir. A atração não tem medo de voar alto e atrai pelas imagens e sensações dos personagens, que não param de sofrer. Quando Deus não está lá, apenas os anjos podem ajudar a encontrar conforto.


domingo, 30 de maio de 2021

Cruella(EUA, 2021)


Cruella, novo live-action da Disney, sobre a juventude da vilã de 101 dálmatas, é carregado por gotas de punk/rock, um visual fabuloso, que recria a vibração glam da década de 1970, e uma multifacetada Emma Stone, na pele da vilã que foi imortalizada no cinema por Glenn Close. A direção ficou por conta de Craig Gillespie, do elogiado Eu, Tônia(2017)

Emma Stone, não incorpora a malevolência extravagante da personagem, mesmo que ela padronize seu riso em alguns momentos. A atriz captura o brilho perverso de uma jovem brilhante, com senso único de moda, chegando a entender seu próprio poder.


Conhecemos a pequena Estella(Tipper Seifert-Cleveland), incompreendida pela maioria de seus colegas de classe e ridicularizada por seu penteado metade preto, metade branco (ela nasceu assim) e sua sensibilidade-punk. Em 1964, e ela já está deslumbrando seu blazer com alfinetes, enquanto cuida carinhosamente de um vira-lata perdido.


Depois de muitas brigas na escola, Estella e sua mãe solteira tentam se mudar para Londres; no caminho, eles param em uma mansão chique onde um baile está acontecendo. Estella se esgueira para olhar mais de perto, os dálmatas a perseguem, mas, em vez disso, acabam levando sua mãe pela encosta de um penhasco. Assombrada pela culpa, Estella chega a Londres sozinha, onde se encontra com os jovens trombadinhas Horace e Jasper.



Após uma infância de crime, a adulta Estella  está pronta para causar impacto no mundo da moda, e sua vandalização de uma vitrine de loja de departamentos captura o olhar da rainha do mundo da alta-costura de Londres, a Baronesa, Emma Thompson, evocando Meryl Streep em
O Diabo Veste Prada.

Os figurinos deslumbrantes criados por Jenny Beaven, ganhadora do Oscar por Mad Max: Estrada da Fúria, têm clara inspiração em Vivienne Westwood em dão o tom fashionista do filme, que exibe a visão vanguardista e revolucionária da moda de Estella.


Após descobrir que a Baronesa é a responsável pela miséria de sua vida,  a personagem assume sua identidade Cruella, com a ajuda dos já crescidos Horace (Paul Walter Hauser), Jasper (Joel Fry), o novo amigo estilista Artie(John McCrea) e a jornalista de moda Adelia(Kurby Howell-Baptiste). Cruella passa a fazer entradas triunfais, em todos os eventos da Baronesa, exibindo fascinantes e exclusivos modelos.


A trilha sonora do filme é simplesmente fantástica, cada momento significativo de Cruella é embalado por uma canção emblemática. Tem The Zombies, Nancy Sinatra, Supertramp, Bee Gees, Rolling Stones, Ike & Tina, The Doors, The Clash, Blondie, e a inédita Call me Cruela, gravada por Florence and the Machine.


É uma delícia assistir Emma Stone e sua montanha russa de emoções proporcionada pela jovem Cruella, e seu glamour diabólico. As origens da personagem da Disney deixam pistas sobre seu futuro sombrio, mas o filme é muito mais um manifesto visual do que é um conto clássico sobre maldade.