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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Bugonia (Irlanda/Reino Unido/Canadá/Coreia do Sul/EUA, 2025)

Por Bruno Weber
O mito da bugonia se refere a um antigo ritual mediterrâneo sobre a geração espontânea da vida. Basicamente, leva-se um boi crescido para uma pequena casa de proporções específicas onde ele será espancado até a morte, mas tomando-se cuidado para não derramar sangue. Então cobre-se todos os orifícios do cadáver com linho. As janelas e portas da casa devem ser fechadas com argila. Após três semanas, a casa é aberta. Onze dias depois, apenas os ossos do boi restaram, já que sua carne e sangue transmutaram-se em grandes enxames de abelhas, que agora cobrem as paredes internas da casa. Os insetos teriam nascido do cadáver, daí "bugonia", que se traduziria do grego antigo como "nascido do boi". Absolutamente nada disso é citado em Bugonia, novo filme do diretor Yorgos Lanthimos. Ainda assim, é possível traçar alguns paralelos entre esse antigo ritual e a trama do filme, e não apenas pela proeminente presença de abelhas em ambos.

Remake de Save The Green Planet!, filme coreano de 2003, "Bugonia" traz Emma Stone em sua quarta colaboração com Lanthimos, interpretando Michelle Fuller, CEO de uma grande farmacêutica. A personagem já nos é apresentada como uma figura superhumana, esse espécime da elite capitalista que se sente totalmente confortável numa rotina rigorosa de reuniões, entrevistas, treinos e dieta, sempre exibindo uma fachada de frieza e amabilidade. Mais um avatar do ideal do empreendedorismo do que uma pessoa. Não é a toa que Teddy, interpretado por Jesse Plemons, acredita que ela realmente não seja um ser humano. Teddy é, de várias formas, o oposto de Michelle: um pária, socialmente desconfortável, vivendo isolado numa casinha no meio do mato, se distraindo de seus traumas que vão se revelando no decorrer do filme apenas através da apicultura e de um constante fluxo de podcasts de teorias de conspiração. E após anos de investigações, ele conclui que Michelle faz parte de uma cabala secreta de alienígenas que controlam cada aspecto da vida humana. Tendo apenas a companhia de seu primo Don (Aidan Delbis, brilhante em seu primeiro papel), a quem convence a participar de sua cruzada contra os ETs, Teddy decide contra-atacar, sequestrando Michelle.


Presa no porão de Teddy, Michelle se transforma no receptáculo de todas as suas crenças e obsessões. Seu cabelo é raspado, para evitar que ela se comunique com suas nave mãe. Ela é forçada a sempre se lambuzar de hidratante, para diminuir seus poderes mentais. E após algum tempo, a tortura com choque elétrico começa. Aos olhos de Don - que até questiona as crenças de seu primo, mas se mantém fiel pela dependência emocional que tem por ele - esse jogo de captor e prisioneira entre Teddy e Michelle revela cada vez mais sobre o verdadeiro caráter de ambos. Se Michelle tenta aos poucos ceder aos delírios de Teddy, seja como estratégia para negociar ou como uma rendição ao absurdo de sua situação, ela ainda não consegue disfarçar o desprezo que sente pelos seus captores e o lugar que ela acredita que eles mantém na hierarquia: eles são perdedores, enquanto ela é uma vencedora. Mas é Teddy, que em certo momento conta que passou anos vagando entre vários movimentos e ideologias, do marxismo à extrema-direita, e somente encontrou sentido quando se jogou na mais absurda das fantasias conspiratórias, que ilustra bem a sensação de desconforto e paranoia das últimas duas décadas. É uma sensação da qual todos nós compartilhamos um pouco, mas que levou à ascensão de grupos como os antivacina, os incels e os terraplanistas. Pessoas que tem alguma percepção de que estão sendo enganadas, que o mundo não funciona como deveria, mas que não conseguem investigar as causas reais disso.


Com sua habitual abordagem que apela ao absurdo e ao desconforto, oscilando entre o horror físico e a comédia, Lanthimos cria em "Bugonia" um perfeito tratado do mundo atual, das fake news e dos fatos alternativos, onde a verdade é cada vez mais tratada como subjetiva. Assim, mesmo que Teddy afirme que seu objetivo ao sequestrar Michelle é o de contatar os alienígenas para negociar a liberdade da raça humana, tornando-se assim seu salvador, seu verdadeiro desejo é muito mais religioso. Ele quer manifestar a realidade na qual suas crenças fazem sentido, na qual toda a sua dor não foi em vão. De certa forma, ele faz de Michelle o boi no ritual da bugonia.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Fantasmas (EUA, 2024)

Julio Torres é um nome a ser notado, após seu longa da estreia na direção, Problemista, ele produz e estrela sua própria minissérie, para a HBO, onde praticamente reprisa o papel, o de si mesmo. Julio visita a sede da Crayola, onde diferentes cores estão atendendo chamadas de atendimento ao cliente. Ele lança uma nova cor clara, e os executivos com quem ele está se encontrando se perguntam qual é o propósito. "Colorir algo claro é reconhecer que as coisas são diferentes, e tudo bem." Como ele quer chamar a cor? "Fatasmas".

Como nas melhores obras de Michel Gondry, a atração, de seis episódios, é desenvolvida através de esquetes alimentadas pela lógica onírica.  O enredo em si para Fantasmas é hilariantemente direto ao ponto. Julio Torres, está à procura de seu brinco de ostra dourada perdido. Sua jornada o leva a encontrar todos os tipos de pessoas e esquisitices ao longo do caminho. Há uma razão, no entanto, para que Julio esteja fixado nesse brinco. É o tamanho exato de sua marca de nascença que ele agora está convencido de que é cancerígeno. Ele precisa do brinco para confirmar seus temores de que a marca de nascença tenha crescido.


Essa fixação é um meio de se distrair de outras questões maiores. Ele recebe continuamente mensagens e ligações sobre ser despejado de seu apartamento. Para ficar e/ou encontrar um novo apartamento, ele precisa de algo chamado "prova de existência", algo que ele é absolutamente contra fazer.

Sua agente, Vanesja, interpretada por Martine Gutierrez, tenta desesperadamente fazê-lo se concentrar nisso, não em sua marca de nascença. Enquanto ela está tentando fazê-lo estrelar um comercial duvidoso no estilo Orgulho para um cartão de crédito, ele está rastreando clubes gays administrados por hamsters traficantes.


A burocracia se mostra uma barreira constante, já que vários órgãos exigem provas da existência de Julio. Fantasmas explora como a papelada e a burocracia podem encaixotar as pessoas, sufocando as almas criativas. Uma crítica também ao sistema de migração, já que Torres é de origem latina.


O diretor de fotografia Frederik Wenzel enquadra cada cena peculiar com calor e cuidado, imbuindo até mesmo os momentos mais bizarros com humanidade fundamentada. Além disso, Torres cria uma paleta visual única ao longo da série e o design de produção brilhante dá à série uma natureza tátil que parece de outro mundo.


As participações especiais são muitas e bastante inusitadas: Paul Dano, Steve Buscemi, Natasha Lyonne, Kim Petras, Alexa Demmie, Emma Stone, que está na produção, Bowen Yang, como um ajudante de papai noel sendo processado por elfos, e até a sempre fluída Tilda Swinton, como a água.


Fantasmas exemplifica o espírito criativo sem limites de Torres, que não está disposto a ser confinado por convenções ou normatividades. Oscilando entre gêneros de melodrama, fantasia e paródia, ele cria um mundo tão estranho e surreal quanto a mente humana.



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Pobres Criaturas(Poor Things, Irlanda/Reino Unido/EUA, 2023)

Baseado em um romance homônimo, de 1992 , de Alasdair Gray, Pobres Criaturas conta a história de Bella Baxter (Emma Stone) depois que ela tenta suicídio, apenas para ser reanimada com o cérebro de seu filho ainda não nascido pelo emocionalmente e literalmente desfigurado Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe).

Inicialmente ingênua e reduzida à mente de uma criança, Bella é mantida sob o olhar atento do Dr. Baxter , também referido sem sutileza pelo apelido Deus,  e seu aluno/assistente Max McCandles (Ramy Youssef). Ele foi trazido para tomar notas detalhadas sobre os processos cognitivos de Bella e acabou sendo persuadido a pedir a mão dela em casamento. No entanto, Bella não está disposta a ser amarrada em sua nova vida, apesar dos crescentes sentimentos paternos do cirurgião que a reanimou.


Bella rapidamente desenvolve um apetite sexual voraz, e traz cores ao filme,  sem as armadilhas da sociedade abotoada da Inglaterra vitoriana, foge com um advogado, Duncan Wedderburn(Mark Ruffalo). Ele se apresenta como libertino, mas rapidamente se revela como sendo emblemático de muitos dos preconceitos de sua sociedade patriarcal.

Em contrapartida, Bella se vê em busca de autodescoberta e libertação. Bella e Wedderburn embarcam no que só pode ser descrito como uma odisseia hedonista ambientada nos fundos pastel de Lisboa, Cairo e Paris.

Yorgos Lanthimos se juntou ao roteirista, Tony McNamara, com quem trabalhou anteriormente em A Favorita(2018). McNamara constrói o roteiro com diálogos contundentes que oferecem um contraste gritante entre os personagens. O texto de Bella, em particular, é incrivelmente indicativo do crescimento filosófico de sua personagem ao longo do filme.


Indicada ao Oscar, Emma Stone é grandiosa, com uma atuação matizada e multifacetada que demonstra seu alcance como atriz. A personagem que ela interpreta é literalmente um monstro de Frankenstein, uma mulher vitoriana infantilizada que está em constante evolução e a inteligência pode ser observada cena a cena.


Um ponto significativo da trama é Bella optando por se voltar para o trabalho sexual, juntando-se a um bordel em Paris administrado pela excêntrica Madame Swiney (Katherine Hunter). É aqui, que a experiência também se torna um conto queer, já que Bella, vê sua ida para a prostituição como um aspecto de libertação.

Pobres Criaturas é definitivamente um filme estranho e fora do comum que cruza a linha entre comédia sombria, ficção científica e fantasia, mas faz isso para forçar o limite sobre o que significa encontrar-se. O longa mistura ambiciosamente o Frankenstein, de Mary Shelley, com uma estética steampunk e uma transformação inversa de My Fair Lady em um conto fantástico, e cínico,  de autodescoberta cheio de sagacidade, cuidado,  e uma certa dose macabra.


domingo, 30 de maio de 2021

Cruella(EUA, 2021)


Cruella, novo live-action da Disney, sobre a juventude da vilã de 101 dálmatas, é carregado por gotas de punk/rock, um visual fabuloso, que recria a vibração glam da década de 1970, e uma multifacetada Emma Stone, na pele da vilã que foi imortalizada no cinema por Glenn Close. A direção ficou por conta de Craig Gillespie, do elogiado Eu, Tônia(2017)

Emma Stone, não incorpora a malevolência extravagante da personagem, mesmo que ela padronize seu riso em alguns momentos. A atriz captura o brilho perverso de uma jovem brilhante, com senso único de moda, chegando a entender seu próprio poder.


Conhecemos a pequena Estella(Tipper Seifert-Cleveland), incompreendida pela maioria de seus colegas de classe e ridicularizada por seu penteado metade preto, metade branco (ela nasceu assim) e sua sensibilidade-punk. Em 1964, e ela já está deslumbrando seu blazer com alfinetes, enquanto cuida carinhosamente de um vira-lata perdido.


Depois de muitas brigas na escola, Estella e sua mãe solteira tentam se mudar para Londres; no caminho, eles param em uma mansão chique onde um baile está acontecendo. Estella se esgueira para olhar mais de perto, os dálmatas a perseguem, mas, em vez disso, acabam levando sua mãe pela encosta de um penhasco. Assombrada pela culpa, Estella chega a Londres sozinha, onde se encontra com os jovens trombadinhas Horace e Jasper.



Após uma infância de crime, a adulta Estella  está pronta para causar impacto no mundo da moda, e sua vandalização de uma vitrine de loja de departamentos captura o olhar da rainha do mundo da alta-costura de Londres, a Baronesa, Emma Thompson, evocando Meryl Streep em
O Diabo Veste Prada.

Os figurinos deslumbrantes criados por Jenny Beaven, ganhadora do Oscar por Mad Max: Estrada da Fúria, têm clara inspiração em Vivienne Westwood em dão o tom fashionista do filme, que exibe a visão vanguardista e revolucionária da moda de Estella.


Após descobrir que a Baronesa é a responsável pela miséria de sua vida,  a personagem assume sua identidade Cruella, com a ajuda dos já crescidos Horace (Paul Walter Hauser), Jasper (Joel Fry), o novo amigo estilista Artie(John McCrea) e a jornalista de moda Adelia(Kurby Howell-Baptiste). Cruella passa a fazer entradas triunfais, em todos os eventos da Baronesa, exibindo fascinantes e exclusivos modelos.


A trilha sonora do filme é simplesmente fantástica, cada momento significativo de Cruella é embalado por uma canção emblemática. Tem The Zombies, Nancy Sinatra, Supertramp, Bee Gees, Rolling Stones, Ike & Tina, The Doors, The Clash, Blondie, e a inédita Call me Cruela, gravada por Florence and the Machine.


É uma delícia assistir Emma Stone e sua montanha russa de emoções proporcionada pela jovem Cruella, e seu glamour diabólico. As origens da personagem da Disney deixam pistas sobre seu futuro sombrio, mas o filme é muito mais um manifesto visual do que é um conto clássico sobre maldade.


segunda-feira, 5 de abril de 2021

A Favorita(The Favourite, EUA/Reino Unido/Irlanda, 2018)


A Favorita de Yorgos Lanthimos, de O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado, usa de toda a ironia e cinismo dos filmes anteriores para fazer uma sátira sobre a realeza britânica do século XVIII. Com 10 indicações ao Oscar, o filme levou o prêmio de Melhor Atriz para Olivia Colman, que interpreta a Rainha Anne, da Grã Bretanha

Excêntrica, rodeada por coelhos, a rainha é acompanhada por sua fiel escudeira a Duquesa de Marlborough, Lady Sarah(Rachel Weisz), amiga, confidente, braço direito e amante secreta. Com a chegada de Abigail(Emma Stone) no castelo, quase como uma gata borralheira, o cenário irá se transformar. Não demora muito para que Abigail caia nos encantos da majestade e comece a mostrar suas verdadeiras intenções. A jovem é manipuladora, se envolve em intrigas e arruma em Lady Sarah, uma inimiga, enquanto vira cortesã de Anne. A força feminina é o combustível de A Favorita, que mostra personagens livremente reais e completamente passionais. A rainha, apesar de agir como uma criança mimada, é humana como qualquer um, e sua vontade de não tomar decisões importantes para a Inglaterra, mostra o quanto é alienada e só quer aproveitar o lado bom do trono. As três atrizes brilham em seus respectivos papeis. Tendo como pano de fundo um reino caótico, o visual do filme é opulente e várias cenas são como quadros renascentistas na fotografia de Robbie Ryan, que abusa da lente grande angular, para ampliar os ambientes luxuosos. Há uma ambiguidade sexual nos duques e condes com suas perucas e maquiagem. Há uma forte sensualidade que paira no ar. Esse interessante triângulo, cheio de atitudes questionáveis, mostra que além de uma sátira histórica rica em detalhes no roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara, que evoca Ligações Perigosas, o longa do diretor grego é um filme sobre as imperfeições humanas.