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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Salão de Baile (Brasil, 2024)



Salão de Baile, de Juru e Vitã, oferece um olhar da favela para a cultura ballroom. Originária das comunidades periféricas de Nova York, essa manifestação artística ganhou o mundo, mas demorou para que tal visibilidade chegasse, mesmo com um hino POP que a exaltava.

Em 1990 Jennie Livingston, lançou Paris is Burning, filme que deu o pontapé inicial ao movimento new queer cinema, mas que permaneceu por muito tempo como um cult. Quando redescoberto, o ballroom e as casas de acolhimento ficaram em evidência, servindo de referência para DragRace, sendo lindamente ilustrado na série Pose, ou em realitys que colocavam a cultura em competição.

Os coletivos do movimento recebem principalmente pessoas trans e negras, jogadas às margens e nesse contexto, trazido para a realidade brasileira, sobretudo a carioca, é que Salão de Baile se desenrola, com muito close, quicação de bunda, bateção de cabelo e funk.

Mesmo que o filme exalte ícones da cultura ballroom, como Crystal LaBeija, uma figura fundamental para o movimento, imortalizada no documentário The Queen(1968), ele é sobre vivências locais, em um país transfóbico e que coage pessoas LGBTQIA+, especialmente em ambientes mais vulneráveis.



Sendo assim, Salão de Baile encontra conforto nas festas, onde as categorias, adaptadas para o cenário  fluminense, como a Batekoo por exemplo, são maravilhosamente representadas. São nesses momentos, que a fotografia, de Suelen Menezes e Paula Monte, iluminam a cena e tornam os corpos do Salão de Baile cintilantes como devem ser.

A partir das experiências queer, dança, música e performance se transformam num mosaico de corpos em movimento, vozes sendo ouvidas e o pertencimento acontecendo. O Voguing, movimento da pista ballroom, e um dos principais passos, imortalizado na música de Madonna, é claro que ganha os holofotes, mas não sem dar uma cutucada pela apropriação feita pela Rainha do POP.

Tanto Juru como Vitã fazem parte do movimento ballroom do Rio de Janeiro, assim como a maioria da equipe do longa. “Mais do que um filme sobre a cena ballroom, nós fizemos um filme em conjunto com a comunidade ballroom. Queremos proporcionar ao espectador uma experiência de imersão no universo, com o nosso olhar ‘de dentro’”, explica Vitã.


As mães e as Houses cariocas ganham um novo espectro,  uma nova identidade, novos horizontes e vocabulário, porém a essência permanece aquela do documentário realizado no final da década de 1980. A cena é retratada com o glamour decadente de um refúgio, para pessoas, que ainda hoje são marginalizadas, por questões sociais, por uma sociedade hipócrita que as oprime.



COLETIVOS QUE PARTICIPAM DO FILME

House of Alafia, House of Blyndex, House of Bushidö, House of Cabal, The Royal Pioneer Kiki House of Cazul, Casa de Cosmos, Casa de Dandara, Casa dy Fokatruá, House of Império, Casa de Laffond, House of Mamba Negra, House of Raabe, e 007 (são chamadas de 007 as pessoas que não fazem parte de nenhuma casa).

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Paris is Burning(EUA, 1990)


 “The Category is”…"Shade"..., os termos são alguns dos tantos imortalizados pelo fundamental documentário Paris is Burning, que se refere a uma época específica, onde Nova York era o centro dos ballrooms, uma cultura muito particular que é o tema do filme, de Jennie Livingston.

O filme dá ao público um vislumbre muito real do que as pessoas transgênero suportam, e embora a vida LGBTQIA+ tenha melhorado desde o lançamento, a maioria das discussões deste documentário ainda soam verdadeiras no mundo contemporâneo.


O filme de 1990 é um dos maiores ícones do cinema gay e representa o início do movimento new queer cinema. O documentário retrata a cultura dos bailes gays no final dos anos 1980 no Harlem. Sua abordagem faz com que se abram discussões sobre gênero, ativismo negro e estudos trans.


Em Paris is Burning é possível conhecer as ‘famílias’ e 'casas' que eram grupos de gays marginalizados que se uniam em uma comunidade capitaneada por uma ‘mãe’. Somos transportados a uma época onde ser gay era tabu e gay negro ou afro-latino ainda pior. Essas pessoas encontravam nos bailes uma saída para as amarras impostas pela sociedade. Os bailes traziam categorias onde os integrantes de cada família podiam fugir da dura realidade.


As entrevistas revelam personalidades ricas como Pepper La Beija que mesmo diante de um presente decadente vive em toda sua complexidade apegada ao luxo de outrora.  Os depoimentos de jovens e veteranos contextualizam o conceito das famílias e dos bailes. Venus Xtravaganza é outra personalidade que tem destaque na narrativa construída pela diretora.


O espectro que rodeia o filme porém não é de glamour e traz uma atmosfera sombria. Naquela época se vivia o auge da epidemia da AIDS e apesar disso não ser abordado diretamente no filme, está muito subentendido, e presente, naquele ambiente marginalizado.

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Paris is Burning também nos mostra que Vogue, imortalizado por Madonna, começou como uma dança  onde queers disputavam na pista de dança fazendo carão e poses da famosa revista. O coreógrafo mais celebrado do movimento representava a casa Ninja e inclusive coreografou para o clipe da Rainha do POP.


É importante ressaltar o legado deixado pelo documentário. A obra chegou ao conhecimento do grande público e inspirou Ryan Murphy a desenvolver a série Pose, outras atrações como Legendary e até mesmo RuPaul’s Drag Race bebem muito dessa fonte. Sem falar do reconhecimento, ainda que tardio, da cultura ballroom, no POP, por ícones como Beyoncé, e é claro Madonna. Legendário!




quinta-feira, 21 de julho de 2022

The Queen(EUA, 1968)


Décadas antes de RuPaul's Drag Race e Paris Is Burning (1990), e um ano antes de Stonewall, este documentário de 1968 deu à maioria do público seu primeiro olhar sobre a cultura drag. Tendo como pano de fundo o concurso de beleza Miss All-America Camp, de 1967, The Queen foi um dos primeiros filmes a se concentrar em uma subcultura retratando uma competição.

A abordagem improvisada do diretor Frank Simon, apresenta pela primeira vez Jack Doroshow, o experiente artista drag que organizou a competição e a conduz sob o nome de Flawless Sabrina. Em suas próprias palavras, Sabrina é “toda essa coisa de mãe de bar mitzvah.”

À medida que avançam em direção ao grande evento, até o mais mundano dos homens se transforma em uma bela mulher com a ajuda de uma peruca, maquiagem, um vestido e a ajuda de suas colegas concorrentes. A maioria das drag queens são cativantes e solidárias até que a vencedora seja coroada, momento em que Crystal LaBeija, fundadora da lendária House of LaBeija, pula em Doroshow, alegando que a coisa toda foi armada.


Miss Crystal, uma esplêndida criatura hispânica que explode de frustração e raiva quando descobre que a competição lhe escapou. Mas todos os outros artistas também têm sua capital de simpatia, jovens homossexuais das ruas de Nova York, das áreas nobres da Costa Leste reunidos em Manhattan para um concurso de drag queens. O diretor Frank Simon os deixa falar sobre suas histórias, suas relações com seus pais, seus amores, seus sonhos e seus sofrimentos.

A presença tranquilizadora da Flawless Sabrina, que os protege como uma verdadeira mãe, é um dos elementos mais comoventes do filme. Antes de brilhar temporariamente no palco do teatro um tanto decadente alugado para a competição, suas jornadas foram obviamente duras e atormentadas: jogadas na rua por suas famílias, excluídas de suas faculdades ou demitidas de seus empregos, elas encontram na comunidade drag a liberdade de identidade que lhes faltava.


The Queen é uma cápsula do tempo um registro da cena drag quando o cross-dressing fora do palco ainda era ilegal em Nova York. De fato, Doroshow foi preso enquanto promovia o filme na Times Square. A maioria dos verdadeiros shows de drag eram realizados em bares gays em bairros afastados em grandes cidades como Nova York, São Francisco, Chicago e Atlanta, que se tornaram centros gays.

Foi considerado um avanço em 1967 que Doroshow reservou um local importante, a Prefeitura de Nova York, para sua competição. Ele pode ter se safado porque o evento foi anunciado como "um acontecimento satírico", com a venda de ingressos beneficiando a Associação de Distrofia Muscular.

As drag queens da década de 1960 modelaram seus looks quase inteiramente em velhas estrelas de Hollywood, com uma concorrente chamada Harlow. Mario Montez, estrela de Andy Warhol, um dos jurados, é nomeado pela exótica protagonista como Maria Montez, proporcionando entretenimento no show.

Depois de décadas do filme ficar fora de circulação, o roteirista e cineasta Shade Rupe chamou a atenção do vice-presidente sênior de Kino Lorber, Bret Wood. Sob um acordo com o co-produtor original do filme, Si Litvinoff, o distribuidor deu à The Queen uma restauração 4k usando o negativo original da câmera e o reeditou em cinemas selecionados.


A última parte de The Queen é inesquecível: Miss Crystal, que acaba de perder a coroa para Miss Harlow e vê seu ego posto à prova, lança-se nos bastidores em uma cena digna de Bette Davis. Gritos, traições e ameaças irrompem na direção da extravagante organizadora da competição e da tímida vencedora, que o tomam por sua classificação em uma explosão de frustração épica. Cinco minutos infernais e hilariantes que provam que uma drag queen enfurecida sozinha pode ser mais intimidante do que um policial armado.