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quinta-feira, 10 de julho de 2025

Memórias de um Espião (Another Country, Reino Unido, 1984)

 "Memórias de um Espião", adaptação da peça de Julian Mitchell, é um filme que explora a vida de Guy Bennett (Rupert Everett), inspirado no espião Guy Burgess, na Inglaterra dos anos 1930. Dirigido por Marek Kanievska, o filme mantém o espírito teatral. A história mostra a pressão de uma escola inglesa de elite, onde privilégio e regras rígidas moldam os personagens, e a traição e a chantagem aparecem como peças-chave na criação de um espião. É uma trama que não envelhece, falando de lealdade, identidade e poder de um jeito que ainda faz sentido hoje.

A representatividade é um dos pontos mais fortes do filme, tratada com cuidado para a época. A homossexualidade de Guy Bennett não é só um detalhe, mas o que o coloca em conflito com o sistema. O suicídio de Martineau, um aluno pego em um relacionamento com outro garoto, deixa claro o peso da repressão na escola e na sociedade. O filme não tenta romantizar a experiência queer, mas mostra como ela revela a hipocrisia de um sistema que exige que todos sigam a mesma linha. A relação entre Bennett e Harcourt (Cary Elwes) é delicada e cheia de emoção, trazendo à tona a solidão e a fragilidade de viver sob homofobia, um tema que ainda ecoa.

O filme se destaca pelo charme visual, pelo roteiro quase perfeito de Mitchell e pelas atuações incríveis. Rupert Everett em seu primeiro papel no cinema, é carismático, sensível e rebelde. Colin Firth, como Tommy Judd, traz uma energia intensa como o amigo idealista e comunista, e a química entre os dois, que já haviam feito a peça juntos, é um dos pontos altos.

O que faz "Memórias de um Espião" especial é como ele mistura temas pesados, sexualidade, política, privilégio e traição, sem perder o lado humano dos personagens. O romance entre Bennett e Harcourt, mesmo sendo ficcional, dá um toque emocional forte.
"Memórias de um Espião" vai além do seu tempo, falando de coisas que ainda importam, como identidade, resistência e sacrifício. As atuações  junto com o texto afiado de Mitchell, transformam o filme em algo maior que uma simples adaptação. Ele critica a homofobia e a desigualdade de classe de um jeito que ainda faz pensar, tornando-se um marco do cinema britânico que continua relevante para falar sobre poder e privilégio.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Direito de Amar (A Single Man, EUA, 2009)

Direito de Amar, filme de estreia do famoso estilista Tom Ford, é contado do ponto de vista de seu herói, George (Colin Firth), o homem solteiro, do título original, porque é homossexual. Já se passaram oito meses desde que seu amante morreu, e ele ainda sofre. Ele está vazio. Sua única amizade é com Charley (Julianne Moore), uma triste alcoólatra de certa idade com quem uma vez, por um breve período, teve um caso acalorado. Ela lhe dá gim e simpatia, mas é mais ritual do que conforto. Ela tenta beijá-lo, diz que talvez "ainda possamos fazer isso", mas isso é uma mentira em que ninguém acredita.

O filme começa no que pode ser o último dia da vida de George, em 1962. A visão de um revólver esperando em uma gaveta torna isso inconfundível. Ele executa seu ritual matinal de se arrumar e se vestir com um gosto impecável, e se mostra para o mundo como o próprio modelo de perfeição.

Ele dá uma aula na faculdade sobre Aldous Huxley. Ele trabalha em um subtexto sobre aqueles que não se conformam. Nenhum aluno está interessado, exceto Kenny (Nicholas Hoult), que pode estar menos interessado na palestra do que no professor.


Indicado ao Oscar, Firth interpreta George soberbamente. Ninguém verá nada fora do lugar no personagem. Tendo crescido na Grã-Bretanha nas décadas de 1920 e 1930, ele deve ter encontrado poucas pessoas com quem pudesse compartilhar sua verdadeira natureza. Agora, na Califórnia, ele tinha apenas seu amante, e seu amante está morto. A vida é obsoleta e sem perspectiva.


Sua noite é passada com Charley, que está sempre um pouco embriagada. Ela se preparou para o encontro deles, e está impecavelmente arrumada, sua maquiagem perfeita e o jantar elegante. A estética refinada e perfeccionista do filme é uma característica de Ford . Ela oferece uma simpatia que ele mal sente. É horrível que este seja o relacionamento mais significativo agora em qualquer uma de suas vidas.


Ele se vê como impecável, reservado, irônico, resignado, distante. Ele projeta uma fachada fria e impenetrável. Charley é vista do jeito dele, que pode não ser como ela realmente é. Quando acontecem eventos que interrompem sua rotina, ele tenta manter seu comportamento inalterado. Seu jogo é aparentemente completar este dia da forma como planejou.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Memórias de um Amor(Supernova,Reino Unido/Irlanda, 2020)


Colin Firth, ganhador do Oscar por O Discurso do Rei e indicado por O Direito de Amar, onde também interpreta um homossexual, e Stanley Tucci, indicado por Longe do Paraíso, protagonizam esse drama, onde como numa Supernova, uma explosão do estágio máximo evolutivo de uma estrela, eles transbordam na entrega de suas atuações.

No filme, dirigido e escrito, por Harry MacQueen, os consagrados atores interpretam Sam e Tusker, um casal junto há 30 anos. Sam(Firth), é um renomado pianista britânico e Tusker(Tucci), um escritor americano, que acaba de começar a sentir os primeiros sintomas de Alzheimer ou demência, o que o roteiro não deixa totalmente claro.

Os atores têm uma química fantástica, que funciona muito bem nas discussões sobre vida, amor e morte. Com a possibilidade de uma despedida, eles embarcam em uma viagem pelo interior da Inglaterra, em um motor home, junto do cachorro, até à casa da família.


Com cenas lindas e poéticas, como olhar para as estrelas ou dividir a mesma cama, o filme nos entrega uma reflexão dolorida sobre até onde vai o amor. Embora interajam com outros personagens, o longa é segurado pela dupla de protagonistas e seus diálogos e momentos, profundos e intensos.

Sam não aceita a morte iminente de seu parceiro, não consegue dar adeus. Enquanto Tusker, não quer se sentir dependente de ninguém, e coloca temas delicados em questão. Ao ler uma carta comovente escrita por Tusker para toda à família, Colin Firth nos presenteia com um dos melhores momentos do filme.

Através de belas paisagens inglesas, a Supernova, que aqui simboliza a morte vai aparecendo, seja em sequências melancólicas ou em diálogos complexos, que trazem uma acidez e até um certo refinado humor ao texto. 


Lindo, Memórias de um Amor, é uma belíssima e triste história de amor com atuações sublimes e profundas. Um filme para se envolver, comover e se emocionar. Prepare a caixa de lencinhos!



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O Príncipe Feliz(The Happy Prince, Reino Unido/Irlanda, 2018)



Por ser homossexual assumido, Rupert Everett, sempre esteve condicionado à personagens como o de melhor amigo gay, seja de Madonna, em Sobrou pra você, ou Julia Roberts, em O Casamento do meu Melhor Amigo. Toda a fama que construiu desde os anos 1990, o trouxeram até sua estreia na direção e roteiro de um filme sobre um histórico ícone LGBTQIA+.

O Príncipe Feliz faz alusão ao título dos contos que Oscar Wilde contava para seus filhos e que foi lançado como livro. Uma ironia, já que Everett, que ficou irreconhecível para protagonizar a obra, optou por mostrar a fase mais decadente do artista, os três últimos anos de vida, exilado na França, após ter sido preso por ‘sodomia’, na Inglaterra.

Com uma abordagem muito diferente do longa Wilde - O Primeiro Homem Moderno, de 1997, o filme mostra os mesmos personagens sob outro ponto de vista. Colin Firth, é Reggie, seu fiel amigo, Emily Watson, sempre impressionante, a esposa Constance, Colin Morgan seu amor e ruína, Alfred Bosie e Edwin Thomas, o eterno apaixonado, Robbie. O elenco conta ainda com as participações especialíssimas de Tom Wilkinson e da francesa Béatrice Dalle.


Com uma narrativa marcada por flashbacks, que mostram sua glória, ele agora está sofrendo constantes humilhações. Oscar Wilde, consistentemente interpretado pelo também diretor, está distante dos dias do sucesso de O Retrato de Dorian Gray, vivendo à margem da sociedade na Paris, do final da década de 19890, pedindo esmola nas ruas, usando drogas e promovendo orgias.


A obra em grande parte está inspirada em De Profundis, livro de cartas que Wilde escreveu na prisão e foi lançado postumamente. Os diálogos, sagrados e profanos, são poéticos e marcados por um certo sarcasmo. A construção do dramaturgo como um irresponsável e lascivo é absolutamente crível e cativante.


Guiado por provocações verbais, O Príncipe Feliz, é um filme que levanta uma bandeira, ainda que com poucas cenas de sexo ao mostrar o artista como um libertino. Esse filme, nos faz refletir o quanto a repressão aos homossexuais foi caótica, levando um gênio à sua total decadência, resultando em sua morte por meningite e sífilis, aos 45 anos. Quantos vozes mais foram caladas em nome de uma falsa moral? Quantos artistas não puderam se expressar? Somente em 2017, a Inglaterra pediu perdão à Oscar Wilde e mais 50.000 homossexuais que foram presos, unicamente por sua natureza. Demorou, né?