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sábado, 17 de maio de 2025

Cobras e Escadas (Serpientes y Escaleras, México, 2025)


Manolo Caro, o Ryan Murphy mexicano, é o rei do novelão com lantejoulas. Com “Cobras e Escadas", ele nos joga numa escola em Guadalajara onde a elite dá vexame e o poder é uma serpente escorregadia. Após nos fazer rir com “A Casa das Flores” e tremer com “Sagrada Família”, Caro entrega uma atração ácida, em 8 episódios, que é mais leve que o drama denso de últimos trabalhos, misturando “Sociedade dos Poetas Mortos” com sotaque mexicano e “A Usurpadora” em coreôs da Orgulho Gay. É Manolo no auge: hinos pop, tiradas que cortam e uma queerness que incendeia.

Dora López, vivida pela maravilhosa Cecilia Suárez, é a alma de todo tumulto. Professora ambiciosa, ela sonha em ser diretora, mas se enrosca em chantagens, segredos e um filho, Toño (Benny Emmanuel), que é gay e lindamente aceito por ela. Dora tem como aliado o influente chocolateiro Oslo Muriel (Juan Pablo Medina), e juntos trazem momentos de leveza, embora a dinâmica ética acompanhe toda a série. Cecilia, musa absoluta, reina com sarcasmo afiado e uma fragilidade que faz a tela vibrar. O nome Oslo Muriel só pode ser homenagem aos icônicos galãs mexicanos, porque né…

A vibe queer é o coração, e está por tudo, mais explicitamente em Toño com o aspirante a político Nicolás Patiño (Germán Bracco), que são puro FUEGO. O romance explode com Toño cantando Malagueña Salerosa pra Nicolás num momento de catarse no club de drag queens, cercado por drags e criaturas não binárias, culminando num beijo apaixonado, ainda que enfrentem sombras do preconceito. Mas Nicolás namora Juana (Loreto Peralta), a mimada e cleptomaníaca filha de Oslo Muriel, jogando uma bomba de conservadorismo no triângulo amoroso.


Dora, que já sabia da sexualidade de Toño antes dele contar, é um escudo do amor, ela enfrenta tempestades fora da escola e defende-o com unhas e dentes contra o ataque homofóbico do pai dele, Antonio (Luis Felipe Tovar, em participação especial). Isso traz um toque humano e inclusivo, além de uma reviravolta. Mas na escola ultraconservadora, com seu “protocolo antitristeza”, ela sofre abusos da diretora Josefina, interpretada por Margarita Gralia, e dos alunos.

De clubes de striptease com boys de jockstrap ao homoerotismo do corpo de Martiño Rivas, a lente de Caro ilumina cada cena. Vicente (Martiño Rivas, visto em "Nacho"), um político espanhol, e Tamara (Marimar Vega) trazem canastrice e vilanice. Eles conspiram contra Dora e Oslo Muriel, querendo atrapalhar seus planos, enquanto se devoram com uma tensão que é puro melodrama. Martiño destila homoerotismo e CORPÃO, e Tamara é a vilã depravada sexual que solta pérolas como “NO ME SUGAS EL COÑO!”.

A trilha grita HINO, só que em espanhol. VTR3 da Danna Paola, com o elenco dançando na abertura, te pega de cara. Zorra do Nebulossa e Monarchy com Dita Von Teese são realeza queer, enquanto vários temas da Laura Pausini embalam Dora. Malagueña Salerosa é um CENÃO mexicano. Natalia Lafourcade e o cantor Mitre trazem poesia. A banda Toro traz energia. Cada hino rege o caos como num encontro entre RuPaul e “Betty a Feia”.

A estética camp é um delírio visual, com figurinos exagerados que gritam novela mexicana, mas com pinta. Dora de abelha dançando Pajaritos a Bailar no show de calouros é um ícone camp, além de fazer karaoke de Laura Pausini, enquanto o calendário na parede estampam fotos de sua diva. Um velório cheio de tensões e flertes escandalosos transformam cada cena em puro Escândalo! Roque (Alfredo Gattica) e a vidente, professora e amiga Martha Sánchez (Michelle Rodriguez), olha só o trocadilho no nome, adicionam camadas extras e humor, com a ironia de Caro brilhando até nos temas sérios, como homofobia e o papel dos trabalhadores indígenas.


O humor ácido, com tom crítico, é babado, com pérolas que merecem altar. “No México, só respeite a Virgem de Guadalupe e a Juan Gabriel” é uma ode queer, cuspindo deboche e irreverência. É Caro destilando México, com uma leveza que faz “Cobras e Escadas” flutuar onde seus trabalhos anteriores pesaram. O mundo queer fica entre chamas, segredos e um final BABILÔNICO! Mas não se engane, porque entre mariachis, tequila, sexo, alunos mimados e romance queer há uma sátira mordaz sobre corrupção, ética e dinâmicas de poder.


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Não sei se corto os pulsos ou se Deixo Crescer(No sé si Cortarme las venas o dejármelas largas, México, 2013)


Antes de tornar-se internacionalmente conhecido graças ao sucessos das séries La Casa de las Flores e Alguém tem que Morrer, Manolo Caro, reflete em Não sei se corto os pulsos ou Deixo Crescer: um melodrama que trata dos conflitos do casal e da aceitação da realidade, e cuja tensão se rompe ao se deparar com situações cômicas e enredos que rompem o drama.

Originalmente uma peça de teatro, seu elenco quase completo permaneceu para a versão cinematográfica. O filme é sobre os vizinhos de um edifício: um casal recém-casado, seus vizinhos judeus, o novo inquilino e o vizinho antissocial espanhol. Todos eles compartilham o chão em seus diferentes apartamentos, mas em geral estão distantes e raramente trocam uma palavra. Todos vivem em seus próprios microuniversos que se limitam às paredes de seus apartamentos, onde tudo e nada acontece, dia a dia.


Assim, cada núcleo de personagens se desdobra em seu habitat, mas às vezes devem interagir com outros nos espaços que lhe foram designados. No entanto, haverá momentos em que terão que abrir as portas de sua casa e habitar lugares que não foram definidos para isso, o que os enche de desconforto. O diretor conseguiu deixar claro esse desequilíbrio em sua perspectiva visual, enquanto algum comentário sarcástico quebra o silêncio constrangedor e produz risos na sala.


 Um terceiro lugar está integrado na história. Em uma trama paralela (como em flashback), todos os personagens são interrogados por um agente do Ministério Público em uma sala escura que remete a um lugar sombrio e sufocante. Esses momentos têm uma forma bem diferente do resto do filme, com closes, câmera na mão e ares de documentário, nos quais os personagens - em forma de monólogo - revelam seus pensamentos mais profundos. 

Há vários momentos no filme que denotam uma mão inspirada no estilo de Pedro Almodóvar. Cenas com a vizinha Lola, interpretada pela colaboradora constante do diretor espanhol Rossy de Palma, provam isso, sendo através dos figurinos excêntricos, pela profissão de cartomante ou pelo gaspacho que oferece aos seus convidados.

Mesmo apesar da simplicidade de enquadramento e narrativa, e do fato de seus cenários (exceto a delegacia) serem bastante utilitários, o filme de Caro respira uma pitada de nostalgia. Nostalgia do que não é, do que está escondido, dos segredos, da saudade do passado, dos desejos, das saudades. Nostalgia que obriga os personagens a se questionarem. Até a música evoca esse sentimento, com canções bem conhecidas de um passado próximo.


A linha que divide este filme entre ser divertido e virar algo parecido com uma novela mexicana é muito tênue. No entanto, ela consegue se safar, talvez pelo cuidado com os detalhes que o diretor colocou, observando a história de diversos ângulos. Há Lucas(Luis Gerardo Mendes), que está apaixonado pelo amigo “hétero” Félix(Luis Ernesto Franco). Há Nora(Ludwika Paleta) que enfrenta problemas conjugais e há até a famosa Cecilia Suarez, fazendo uma ponta como atriz de telenovela.

domingo, 27 de setembro de 2020

Mariposas Verdes (Colômbia, 2018)



Mariposas Verdes, filme do colombiano Gustavo Neto Roa, é um retrato sobre a homossexualidade na adolescência. Ambientado em uma escola, o longa trata de vários temas polêmicos como a própria sexualidade, bullying, estupro e suicídio.


Cecília Suarez, de La Casa de las Flores e Elvira é Bárbara, a diretora da escola, uma imagem da sociedade colombiana, castradora e conservadora. É pelas mãos dela que o jovem Mateo, que luta por direitos humanos e é um jovem acima de tudo questionador, irá sofrer.


A descoberta da sexualidade se dá com Daniel, é quando Mateo assume para sua família que quer desenvolver sua personalidade livre dos parâmetros. Outros personagens como o efeminado Gabriel e a gordinha Angela, que sofre assédio, também abrem questões importantes para ser debatidas.


Apesar de tratar de tantos temas profundos e complexos, o filme parece não se aprofundar muito no mais importante das questões e se torna uma obra um tanto pretensiosa e amadora sobre a vida escolar.


A escola é um microuniverso do que acontece na Terra, e por isso um território tão rico a ser explorado. Somente em 2015, a Colômbia mudou o seu conservador Manual de Convivência nas escolas para tratar naturalmente a homossexualidade e identidade de gênero.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

La Casa de las Flores 3ª Temporada(México, 2020)


A terceira e última temporada da série mexicana La Casa de las Flores encerra a saga da família de La Mora. A temporada começa exatamente do ponto de onde a segunda terminou, porém com uma narrativa completamente diferente.

O passado da matriarca Virginia, já falecida entra na série para explicar o presente. A propósito a atriz que interpreta a personagem no passado é de fato muito parecida com Veronica Castro, a estrela da primeira temporada. Nessa fase também participa Cristian Chavez, ator conhecido como um dos protagonistas da série Rebelde.

Com um roteiro inteligente, ainda que com certos furos, o texto ironiza inclusive a família Bolsonaro como sinônimo de burrice. É discutido temas como o amor entre uma trans e uma mulher cis, cura gay e também a adoção homoafetiva. É uma série que com sua linguagem de novela mexicana acaba abraçando diversas causas LGBTQIA+.

Os números musicais seguem sendo um dos pontos fortes da série, as drags seguem se apresentando no cabaré e dessa vez ganham a companhia da integrante de RuPaul’s Drag Race, Valentina. Uma sequência ao som de Chavela Vargas nos remete inclusive a um filme de Almodóvar.

Embora a floricultura deixe de ser o pano de fundo de La Casa de las Flores, a última temporada dá ênfase aos conflitos de seus personagens inusitados e encerra muito bem uma trama que ao longo de três temporadas serviu pura diversão e entretenimento.