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domingo, 17 de agosto de 2025

Queens of Drama (Les Reines du Drame, Bélgica/França, 2024)

Alexis Langlois estreia em longa-metragem com um musical que é ao mesmo tempo audacioso, exagerado e profundamente queer. A narrativa acompanha o romance turbulento entre a doce estrela pop Mimi Madamour (Louiza Aura) e a icônica punk Billie Kohler (Gio Ventura), narrado pelo alter ego digital glamuroso Steevyshady (Bilal Hassani). A estética camp, por vezes quase delirante, exibe uma saturação visual que funciona como afirmação política, ocupando, visibilizando e celebrando as narrativas queer em sua máxima intensidade. Esse manifesto visual dialoga com clássicos como “Jubilee”, de Derek Jarman, e “Velvet Goldmine”, de Todd Haynes. É como se Jacques Demy tivesse tomado um café fortíssimo com “Hedwig and the Angry Inch” e decidido fazer um sci-fi pop-punk cantado até o último decibel.

No centro dessa explosão visual está “uma história de amor apaixonada e conflituosa”, um relacionamento que atravessa décadas, da glória televisiva de Mimi até o universo underground de Billie. O recurso à estratificação temporal (de 2005 a 2055) revela a evolução cultural e social da identidade queer, mas mantém uma ambiguidade poética entre o pop mainstream e o punk marginal, nunca deixando de lado a intensidade melodramática.

Embora o excesso seja parte da marca registrada de Langlois, é nos momentos sensoriais,  como os números musicais ou as sequências em que a câmera adota a perspectiva subjetiva, que o filme encontra sua força. Cenas como a aproximação de Mimi e Billie durante um show, quando o mundo ao redor se dissolve em pulsação, ou a explosão dos fãs que as separa no palco, mostram a habilidade do diretor em harmonizar estética e emoção sem cair na mesmice.


Além do dramalhão musical, “Les Reines du Drame” apresenta um olhar crítico sobre o star system, o fandom exacerbado e o papel das redes sociais na construção de identidades. A cultura pop é ressignificada sob uma perspectiva queer, o kitsch, o “has-been” e o artificial são reafirmados como símbolos de resistência e pertencimento.


O filme costura influências de Brian De Palma,  “Phantom of the Paradise” e “Body Double”, à tradição camp queer, passando por melodramas clássicos e chegando à ousadia de “Hedwig and the Angry Inch”, de John Cameron Mitchell. Também é possível sentir ecos dos curtas de Langlois, como “The Demons of Dorothy” e “Terror, Sisters”, em seu humor ácido e na construção de universos queer fantásticos. Essa mistura transforma o longa numa fábula pop-queer que transita entre subcultura e cultura de massa com desenvoltura.


Apesar da inventividade, há momentos em que a homogeneização estética suaviza os contrastes narrativos, o choque entre punk e pop, passado e futuro, mainstream e underground por vezes perde impacto na uniformidade visual. Ainda assim, o filme entrega um desfecho onírico e poderoso, com uma espécie de Éden subterrâneo de divas esquecidas, que sela brilhantemente o dilema de Langlois: a efemeridade queer diante dos sistemas dominantes. A participação de Asia Argento como Magalie Charmer é um presente extra para o público cinéfilo. “Les Reines du Drame” confirma que Langlois é uma voz inédita e necessária no cinema queer contemporâneo.


sábado, 16 de agosto de 2025

Os Demônios de Dorothy (Les démons de Dorothy, França, 2021)

Alexis Langlois é um cineasta que parece ter feito um pacto com o exagero  e, felizmente, cumpre cada cláusula com glitters, sangue falso e melodrama camp. Em “The Demons of Dorothy”, ele constrói uma fábula delirante sobre a própria luta por espaço no cinema queer, transformando a frustração criativa em um espetáculo de horrores e fantasia pop. A protagonista, Dorothy ( Justine Langlois), é uma diretora lésbica que sonha em realizar filmes trash e fabulosos, mas é pressionada a fazer algo mais “normal” para agradar produtores. O que poderia ser apenas uma sátira do mercado cinematográfico se torna, nas mãos de Langlois, um manifesto contra o apagamento das vozes queer dissidentes.

Visualmente, o filme é um carnaval de estímulos: cores saturadas ao ponto da psicodelia, maquiagem over-the-top, cenários que parecem colagens de papelão propositalmente artificiais e figurinos que misturam a estética de videoclipes de Lady Gaga com o underground parisiense. Langlois filma como quem monta um palco de cabaré infernal, tudo é calculadamente excessivo e delicioso de assistir. A fotografia brinca com filtros neon e iluminação dramática, evocando ao mesmo tempo o cinema de John Waters e os mundos mágicos e artificiais de Jacques Demy.


A atuação de Justine Langlois é a engrenagem desse caos: um misto de fragilidade e explosão emocional, como uma diva punk que recusa abaixar a voz. Ao lado dela, personagens grotescos e sedutores surgem como criaturas saídas de um pesadelo kitsch, verdadeiros “demônios” que podem tanto destruir quanto inspirar.

Narrativamente, o filme abraça a metalinguagem. Dorothy está presa num ciclo onde a indústria tenta podar a ousadia queer, e cada aparição demoníaca é como uma encarnação da censura, da normatividade e do autocontrole forçado. Mas Langlois não entrega um discurso frio: ele faz um show grotesco, divertido e libertador. Ao rir e se assustar, o espectador se reconhece nesse campo de batalha entre a arte autêntica e as expectativas limitantes.


O filme também flerta com o terror e o gore, mas nunca de maneira “realista”. O sangue é rosa, os gritos são caricatos, e a violência tem sabor de paródia, como se fosse um musical sangrento que não teme ser ao mesmo tempo infantil e erótico. É nesse exagero que reside sua potência política: mostrar que o queer não precisa se ajustar para ser levado a sério, que o bizarro e o belo podem coexistir sem pedir desculpas.


“The Demons of Dorothy” é um delírio punk-fada sobre perseverar como artista queer num mundo que tenta pasteurizar cada voz. Langlois transforma frustração em arte e nos lembra que, às vezes, para enfrentar a mediocridade, só mesmo convocando nossos demônios mais fabulosos.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Terror, Sisters (França, 2019)

“Terror, Sisters” é uma ode anárquica à rebeldia queer em sua forma mais direta e explosiva. Aqui, Alexis Langlois imagina um grupo de garotas trans e travestis que decidem tomar para si a narrativa, armadas, literalmente, contra uma sociedade que as quer invisíveis. Entre os protagonistas está o magnético Felix Maritaud (“Sauvage”, “120 BPM”), que empresta ao filme sua energia crua e vulnerável, criando um personagem que transita entre o humor e o tesão

O filme é um ataque frontal à complacência: rápido, sujo e sem tempo para concessões. Langlois filma como se cada take fosse o último, com cortes abruptos, música alta e enquadramentos que alternam entre a frontalidade teatral e closes sufocantes. É como assistir a um híbrido de Gregg Araki com um noticiário pós-apocalíptico transmitido de uma boate underground.


A estética visual é tão marcante quanto o enredo: cabelos coloridos, lábios metálicos, jaquetas de vinil e uma paleta cromática que pisca como um letreiro neon prestes a estourar. As ruas por onde as “irmãs do terror” passam parecem cenários de videogame, e o caos urbano vira pista de desfile para uma revolução performática. 


O elenco inteiro entende que está numa ópera punk: as atuações são carregadas de humor ácido, olhar desafiador e entrega física. Há um prazer evidente em destruir símbolos normativos, seja pela palavra, pelo figurino ou pela encenação. Maritaud, especialmente, injeta uma camada de humanidade que impede o filme de ser apenas uma colagem de fúria, há dor real e desejo de conexão sob o verniz da anarquia.


O ritmo, embora caótico, é coreografado como um número musical que se recusa a acabar. Langlois sabe que o impacto vem do acúmulo: cada cor, cada grito, cada olhar para a câmera reforça a sensação de que estamos participando de um levante queer, mais do que assistindo a um filme. E é exatamente essa fusão entre estética e militância que torna “Terror, Sisters” tão necessário.


Ao final, ficamos com a certeza de que Langlois está criando não apenas filmes, mas pequenas bombas estéticas e políticas. “Terror, Sisters” é mais do que uma ficção: é um grito coletivo, um convite para que a arte queer abrace seu lado perigoso e incendiário.