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quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Ponyboi (EUA, 2024)

O cinema raramente concede protagonismo a personagens intersexo, e é justamente nessa fresta que “Ponyboi”, de Esteban Arango, explode como um sopro de vida. Escrita e estrelada por River Gallo, pessoa intersexo não-binária, a narrativa nos leva por uma noite caótica em Nova Jersey, onde crime, romance e identidade se entrelaçam sob o brilho de luzes de neon. O filme, extensão de um curta de 2019, parte de um terreno conhecido, o thriller policial de erros, mas logo subverte o esperado ao centrar sua força em uma vivência que o cinema tradicional insiste em invisibilizar.

Gallo interpreta Ponyboi, balconista de lavanderia e trabalhadora do sexo, que sobrevive entre a marginalidade e o desejo de afeto real. Seu chefe abusivo, Vinny (Dylan O’Brien), controla tanto o espaço físico quanto a vida dos que o cercam, incluindo Angel (Victoria Pedretti), grávida e constantemente negligenciada. Quando uma transação de drogas dá errado e um mafioso morre em circunstâncias comprometedoras, Ponyboi se vê obrigade a fugir, levando consigo não apenas uma mala de dinheiro, mas também as marcas de um passado de rejeição e violência familiar.


O que diferencia “Ponyboy" de outros neo-noirs é a forma como a estética se coloca a serviço da subjetividade do protagonista. A fotografia de Ed Wu, saturada de néons e brilhos oníricos, traduz o choque entre dureza e desejo, entre a realidade cruel das ruas e os lampejos de romantismo que insistem em sobreviver. Em meio à perseguição surge Bruce (Murray Bartlett), um encontro breve mas que ilumina a possibilidade de ternura em um mundo marcado pelo desprezo. A cena do dueto improvisado é um instante de suspensão, em que Ponyboi vislumbra uma vida diferente, e o público também.


A atuação de River Gallo é o eixo central do filme. Alternando firmeza e fragilidade, elu entrega um retrato multifacetado de uma pessoa intersexo que negocia sua identidade a cada gesto, a cada olhar. Ponyboi responde por diferentes pronomes dependendo do interlocutor, e essa fluidez nunca é usada como piada ou estranhamento, mas como afirmação de autenticidade. 


O elenco de apoio contribui para a densidade da narrativa. Dylan O’Brien se reinventa como vilão patético e ameaçador, Victoria Pedretti empresta calor e resiliência à amizade de Angel, e Indya Moore, de “Pose”,  aparece como figura de acolhimento e inspiração, lembrando que outros mundos são possíveis. Todos orbitam ao redor de Ponyboi, mas é Gallo quem dita o ritmo, transformando cada cena em uma reivindicação política e emocional.


Mais que um thriller estiloso, “Ponyboy" é uma afirmação de existência. Ao dar espaço a uma voz intersexo em primeira pessoa, o filme se torna também manifesto, contra os rótulos, contra o apagamento, contra a violência de ser reduzido ao que os outros querem. É uma obra que mescla espetáculo visual com um grito íntimo por autodefinição. Cru, romântico e intensamente queer, o longa surge como marco, lembrando de que o cinema pode ser tão ousado quanto terno quando ousa olhar para quem sempre esteve à margem.


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

The White Lotus(EUA, 2021)


Aclamada no Emmy 2022, a série de Mike White, The White Lotus, é sobre um resort absurdamente exuberante e totalmente disfuncional localizado em Maui, Havaí, e os hóspedes que lá estão. Essas pessoas incluem Nicole Mossbacher (Connie Britton) como uma chefe conservadora de tecnologia, seu marido Mark (Steve Zahn) um homem que, durante as férias, descobre que seu pai morreu de complicações relacionadas ao HIV, e seus filhos, o viciado em pornografia Quinn (Fred Hechinger) e a lésbica enrustida, Olivia (Sydney Sweeney).

Ainda há a brilhante Jennifer Coolidge como Tanya, uma mulher, desequilibrada, de luto pela morte de sua mãe horrível, Paula de Brittany O'Grady, melhor amiga de Olivia, e a doce Belinda de Natasha Rothwell, uma nova gerente de spa e massagista talentosa. Há também um casal recém-casado hétero e chato que compartilha a maior parte absurda do show. A esposa, Rachel (Alexandra Daddario) é uma jornalista que, na verdade, apenas escreve listas como '10 mulheres fodas que mudam o mundo da tecnologia'.  É a personagem menos empática, ainda sim rende bons momentos ao lado do marido mimado e bonitão, interpretado por Jake Lacy.

Ser ridículo é o ponto chave de The White Lotus. A música, uma cacofonia de flautas e gemidos agudos, de Cristobal Tapia de Veer, é brilhantemente insana, nos levando a cenas-chave de angústia emocional enquanto todos os hóspedes (e funcionários) do resort desmoronam espetacularmente.  The White Lotus tem alguns personagens e arcos queer, porém eles surgem de maneira absolutamente natural. É isso que é legal: quase todos os protagonistas têm que lidar com gênero e sexualidade de alguma forma, sejam eles LGBTQIA+  ou não. 

Sobre Olivia: ela está claramente apaixonada por sua melhor amiga Paula, que é uma das únicas pessoas negras hospedadas, em vez de trabalhar, no resort. Paula, por sua vez, está ocupada com Kai, um ilhéu nativo.

Há o caótico gerente do resort, Armond, interpretado primorosamente por Murray Bartlett, famoso por Looking. Armond,é totalmente gay. Ele é obcecado por Dillon(Lucas Gage), o jovem funcionário que parece vagamente chapado a maior parte do tempo. 


Há alguns problemas, no entanto, e não é a falta de realismo. Armond é alguém que luta contra o vício e, quando o conhecemos, seu trabalho o levou ao ponto de ruptura. Ele é mostrado roubando as drogas “prescritas” de Olivia e Paula e tomando-as junto com bebida, quebrando cinco anos de sobriedade de uma só vez. Além disso, o personagem também se envolve em um caso de assédio e não há uma abordagem mais profunda dessas questões sérias. Ainda há a questão do HIV do pai de Mark, que reafirma estigmas do passado.


Mesmo que os personagens queer do programa sejam muitas vezes horríveis, predatórios e idiotas completos, eles ainda são fascinantes e parecem reais. Até a paixão de Jennifer Coolidge por Natasha Rothwell oferece uma trama solidamente vivida. E dentro de todos esses relacionamentos, a série está fazendo o que há de melhor: explorando a dinâmica do poder oculto.




domingo, 12 de junho de 2022

Verão em L.A.(August, EUA, 2011)


Alguns curtas aparentemente clamam por uma adaptação para longa-metragem e, felizmente o trabalho convincente de Eldar Rapaport, Postmortem, de 2005, no qual este filme se baseia, ganhou toda a sua glória e vida.

Troy, interpretado por Murray Bartlett, que posteriormente foi um dos protagonistas de Looking,  retorna para Los Angeles depois de um tempo na Espanha e se reconecta com Jonathan (Daniel Dugan), o homem com quem ele teve um rompimento doloroso antes de deixar o país. Eles inicialmente se encontram para um café, mas o que começa como uma tentativa aparentemente inocente de aproximação se transforma em um ressurgimento de seu caso. No entanto, Jonathan agora tem um novo namorado, Raul (Adrian González), que parece sentir que estava em uma espécie de competição com Troy antes mesmo de ele reaparecer em cena.


Mesmo assim, esse detalhe não impede Troy e Jonathan de flertar abertamente um com o outro, dizendo olhares que sinalizam para todos, incluindo um perspicaz Raul, que uma centelha de romance ainda está fervendo abaixo da superfície de sua amizade agora oficialmente platônica.


O filme oferece a essência da variante do cenário clássico triângulo amoroso. A honestidade da obra, permite que a turbulência emocional que surge quando um homem é pego entre seus amantes do passado e do presente seja nitidamente exposta.

Verão em L.A. não tem pressa para acontecer e  está encharcado de caracterização, cruzado com quadros de tempo, que entrelaçam passado e presente, e que funcionam, sem falar em uma trilha sonora cativante com canções do Oriente Médio.

Igualmente satisfatória é uma onda de calor fornecendo uma desculpa adequada para que as camisas saiam em uma exibição abundante de corpos masculinos. E enquanto personagens adicionais. como esperados, serão encontrados, este drama de relacionamento bem dirigido é construído em torno de seus três protagonistas.


Verão em L.A. é  um estudo de personagem bem filmado, bem atuado e observado sobre a confusão que muitos sentem nos primeiros anos da maturidade, assim como a bagunça que vem com o amor, quando sua cabeça e coração não sabem o que fazer um com o outro.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

LOOKING(EUA, 2014-2015)

Como diz a famosa canção “Everybody is looking for something(Todo mundo está procurando por algo)”, e é isso que os protagonistas de LOOKING, série criada por Michael Lannan, para a HBO, estão fazendo, procurando por amor e realização na cidade mais gay do mundo: São Francisco.

A atração acompanha a vida diária de três gays. Patrick(Jonathan Groff) é um jovem, de 29 anos, que divide o apartamento com o latino e aspirante a artista Augustin(Frankie J. Alvarez). O amigo mais velho Dom(Murray Bartlett), traz um arco de maturidade para a trama, principalmente quando se envolve com o personagem Lynn(Scott Bakula).

Mas o protagonismo é focado realmente em Patrick, e em seus complicados relacionamentos. Ele se envolve com o mexicano Richie(Raúl Castillo), com quem vive dilemas relacionados a diferenças de classe, enquanto mantém uma forte tensão sexual com o chefe, de uma empresa de videogames, Kevin(Russell Tovey).

Kevin está comprometido com Jon(Joseph Williamson), mas ele certamente desperta algo em Patrick que será desenvolvido ao longo da série. Enquanto isso, o namoro com Richie vai evoluindo, e eles até protagonizam um episódio intimista, que lembra os filmes Before, de Richard Linkater.

Enquanto Dom aspira abrir seu próprio restaurante, Augustin vive uma crise no relacionamento com Frank(T. Fagbenle) e Richie e Patrick não conseguem entrar num acordo. A série mostra a homossexualidade sem tabus, apresentando os dilemas da vida gay contemporânea, sem deixar de abordar pegação em parques, saunas e aplicativos.


Quando a segunda temporada começa o sexo é muito mais acessível na tela. Há cenas que exploram a nudez de seus atores, há orgasmos, há pênis expostos, e também há a eterna discussão entre ativo, passivo ou versátil.

Patrick agora está vivendo um caso com Kevin, o que traz ainda mais complicações para sua vida. O britânico é dúbio, parece estar apaixonado pelo protagonista, mas suas intenções podem ser um tanto duvidosas colocando Patrick em diversas situações embaraçosas.

Há muitos coadjuvantes na série, e o destaque é para Richie, que volta na segunda temporada e sempre mostra um enorme coração; Doris(Lauren Weedman), quem divide o apartamento com Dom e se envolve com Malik(Bashir Salahuddin), e finalmente Eddie(Daniel Franzese) que trabalha num abrigo para jovens trans, convive com o HIV e se envolve com Augustin, proporcionando um debate sobre sorofobia, prevenção e PrEP.
Em São Francisco não pode faltar balada, e em balada não pode faltar música, portanto a série proporciona uma trilha ótima. Ao longo das duas temporadas tem The 2 Bears, Sylvester, Body Language, Erasure, Morrissey, Hercules & Love Affair, B52’s, Shit Robot, Cece Peniston, Yazoo, Pet Shop Boys, Sister Sledge, The The, Junior Boys e muito mais.

A atração  pode não trazer representatividade para todo o tipo de homossexuais, mas seria um tanto impossível. Seu arco de personagens, explora bem a diversidade gay ao retratar a vida em São Francisco. Mesmo terminando com um final amargo, após 18 episódios, a série aposta num tom realista que deve ser valorizado. No entanto, a insatisfação dos fãs, e o cancelamento da série originaram posteriormente um longa para um desfecho mais adequado.