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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Pobres Criaturas(Poor Things, Irlanda/Reino Unido/EUA, 2023)

Baseado em um romance homônimo, de 1992 , de Alasdair Gray, Pobres Criaturas conta a história de Bella Baxter (Emma Stone) depois que ela tenta suicídio, apenas para ser reanimada com o cérebro de seu filho ainda não nascido pelo emocionalmente e literalmente desfigurado Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe).

Inicialmente ingênua e reduzida à mente de uma criança, Bella é mantida sob o olhar atento do Dr. Baxter , também referido sem sutileza pelo apelido Deus,  e seu aluno/assistente Max McCandles (Ramy Youssef). Ele foi trazido para tomar notas detalhadas sobre os processos cognitivos de Bella e acabou sendo persuadido a pedir a mão dela em casamento. No entanto, Bella não está disposta a ser amarrada em sua nova vida, apesar dos crescentes sentimentos paternos do cirurgião que a reanimou.


Bella rapidamente desenvolve um apetite sexual voraz, e traz cores ao filme,  sem as armadilhas da sociedade abotoada da Inglaterra vitoriana, foge com um advogado, Duncan Wedderburn(Mark Ruffalo). Ele se apresenta como libertino, mas rapidamente se revela como sendo emblemático de muitos dos preconceitos de sua sociedade patriarcal.

Em contrapartida, Bella se vê em busca de autodescoberta e libertação. Bella e Wedderburn embarcam no que só pode ser descrito como uma odisseia hedonista ambientada nos fundos pastel de Lisboa, Cairo e Paris.

Yorgos Lanthimos se juntou ao roteirista, Tony McNamara, com quem trabalhou anteriormente em A Favorita(2018). McNamara constrói o roteiro com diálogos contundentes que oferecem um contraste gritante entre os personagens. O texto de Bella, em particular, é incrivelmente indicativo do crescimento filosófico de sua personagem ao longo do filme.


Indicada ao Oscar, Emma Stone é grandiosa, com uma atuação matizada e multifacetada que demonstra seu alcance como atriz. A personagem que ela interpreta é literalmente um monstro de Frankenstein, uma mulher vitoriana infantilizada que está em constante evolução e a inteligência pode ser observada cena a cena.


Um ponto significativo da trama é Bella optando por se voltar para o trabalho sexual, juntando-se a um bordel em Paris administrado pela excêntrica Madame Swiney (Katherine Hunter). É aqui, que a experiência também se torna um conto queer, já que Bella, vê sua ida para a prostituição como um aspecto de libertação.

Pobres Criaturas é definitivamente um filme estranho e fora do comum que cruza a linha entre comédia sombria, ficção científica e fantasia, mas faz isso para forçar o limite sobre o que significa encontrar-se. O longa mistura ambiciosamente o Frankenstein, de Mary Shelley, com uma estética steampunk e uma transformação inversa de My Fair Lady em um conto fantástico, e cínico,  de autodescoberta cheio de sagacidade, cuidado,  e uma certa dose macabra.


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Minhas Mães e meu Pai(The Kids are Allright, EUA, 2010)


Com um elenco estrelado, encabeçado por Julianne Moore, Annette Benning, Mark Ruffalo e, os ainda adolescentes, Mia Wasikovska e Josh Hutcherson, a diretora Lisa Cholodenko realizou um filme sobre o que há alguns anos seria impossível, um novo modelo de família, capitaneada por pais ou mães homossexuais.

Moore e Benning interpretam June e Nic, mães de um casal e que vivem uma rotina familiar normal, apesar do casamento já apresentar sinais de desgaste. A filha mais velha, interpretada pela futura Alice, está prestes a entrar na faculdade, enquanto Laser o mais jovem vive os típicos dilemas de um adolescente.


É de um desses dilemas, que nasce nos irmãos a vontade de conhecer o pai biológico, eles conseguem através do banco de sêmem o contato com o doador e ligam para Paul(Mark Ruffalo), que recebe a ligação como um sopro de juventude em sua vida já cansada.


Paul, e os filhos biológicos se encontram e simpatizam a primeira vista. As mães no início relutam, mas acabam aceitando aquela tão rara presença masculina na vida de todos. Os jantares e reuniões acabam se tornando tão constantes que June vai trabalhar para Paul, e esse é o início do fim.


Se sentindo rejeitada pela esposa, June, Juliane Moore sempre brilhante, acaba se envolvendo nos encantos de Paul, o que desencadeia uma série de acontecimentos conturbados com problemas e dilemas sendo expostos.


Minhas mães e meu pai, pode não ser o filme definitivo sobre esse novo modelo de família, mas é uma vitória imensa realizar um longa com este tema, diante de todos os preconceitos e estigmas que homossexuais já sofremos no cinema.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

The Normal Heart(EUA, 2014)



Anos antes de retratar a disseminação do HIV em sua série Pose, Ryan Murphy dirigiu para a HBO The Normal Heart, longa protagonizado por Mark Ruffalo e Julia Roberts, que mostra como tudo começou em Nova York e retrata anos difíceis de políticas de saúde, ativismo e militância por pacientes vivendo com AIDS.

Quando o filme começa, em 1981 tudo são flores, música, sexo livre e liberdade. Porém uma misteriosa doença surge e ameaça, sobretudo, a população gay. Pouco se sabia sobre a enfermidade, apenas que era um vírus de alto nível contagioso. A doutora Emma, cadeirante interpretada por Julia Roberts, é pioneira em pesquisas e tratamento, porém sem orçamento e apoio do governo tudo se torna mais difícil.


Enquanto isso Ned Weeks(Ruffalo), se envolve com Felix, Matt Bommer, para bem pouco tempo depois descobrir que o namorado está infectado. Um retrato tão degradante da saúde de pacientes com AIDS, não era mostrado desde Tom Hanks, em Filadélfia. Porém aquela era a realidade em uma época sem tratamento e informação.


Junto a um grupo de amigos, Ned cria o Auxílio de Crise de Saúde Gay, uma ONG que luta por direitos e acima de tudo visibilidade. Participam da associação Tommy, Jim Parsons, de The Big Bang Theory, e Joe Mantello, que mais tarde viriam a trabalhar com Murphy, na série Hollywood.

Alfred Molina interpreta o irmão de Ned, personagem que até certo ponto representa uma camada de como a sociedade enxergava os homossexuais, porém diante da doença do cunhado ele têm seu coração partido.


Num cenário de morte, antes do AZT e do governo pronunciar claramente a palavra AIDS, o filme é desenvolvido. Mark Ruffalo numa performance acima da média passa por momentos de incerteza e impotência ao mesmo tempo que mantém sempre seu posicionamento e enfrentamento que o levam até à Casa Branca.


Nos Estados Unidos apenas em 1986, depois de mortes de milhares de homossexuais, anos de omissão e preconceito, o país criou políticas de apoio à AIDS levando uma mensagem de esperança a população LGBTQIA+.


Baseado no livro homônimo de Larry Kraemer e com o roteiro escrito pelo próprio, The Normal Heart, é um retrato triste, urgente e necessário sobre uma epidemia de um vírus, que felizmente hoje é tratável mas ainda assola a comunidade gay com muito estigma e preconceito.