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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

ATO NOTURNO: Entrevista com Marcio Reolon e Filipe Matzembacher

Depois de uma trajetória consagrada pelos principais festivais do mundo, “Ato Noturno” finalmente chega aos cinemas brasileiros. O novo longa de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher levou Porto Alegre para o circuito internacional, estreou no Festival de Berlim, circulou por diversos continentes e se firmou como um dos grandes destaques do cinema brasileiro em 2025. Agora, com distribuição da Vitrine Filmes, “Ato Noturno” estreia nos cinemas em 15 de janeiro, dentro do projeto Sessão Vitrine Petrobras. Para marcar esse lançamento, o CINEMATOGRAFIA QUEER conversou com os diretores Marcio Reolon e Filipe Matzembacher sobre desejo, política, cidade e cinema de gênero.

CINEMATOGRAFIA QUEER:  “Ato Noturno” nasce do encontro entre desejo, risco e vida pública. Em que momento vocês perceberam que essa história precisava ser contada agora?

Marcio Reolon e Filipe Matzembacher: A ideia surgiu justamente porque estamos vivendo um momento muito puritano e conservador, em que o desejo tem sido tratado como algo a ser reprimido, apagado ou ignorado. Isso não acontece só na extrema direita, mas também em certos discursos progressistas que passaram a lidar mal com o erótico. O desejo é uma força de conexão, de alteridade, de comunicação  e, acima de tudo, ele é político. Alguns desejos são profundamente desestabilizadores porque confrontam estruturas de poder. Em uma sociedade ultraneoliberal, que tenta apagar subjetividades para que todos se encaixem em modelos de sucesso, o desejo vira algo a ser controlado. O filme nasce desse choque: uma força primária, quase incontrolável, contra um sistema que tenta castrar, punir e moldar.

CQ: O sexo em espaços públicos aparece como linguagem do desejo. Como vocês pensaram o cruising como metáfora política?

Diretores: O cruising é uma prática histórica da comunidade LGBT, com mais de cem anos. Ele é gratuito, não mediado por dinheiro, fora de bares, hotéis ou aplicativos. Também carrega uma aura de marginalidade porque abriga pessoas que não conseguem viver seu desejo em outros espaços. Para os personagens, o cruising surge como resposta ao apagamento: eles suprimem o desejo para performar sucesso, e esse espaço vira uma espécie de válvula de escape. Pensamos o cruising como um labirinto, quase teatral, um lugar idílico, de projeção de fantasias. E há algo fundamental ali: o olhar. No cruising, tudo começa pelo olhar, observar, ser observado, reconhecer o outro. Esse jogo de vigilância, desejo e risco é central no filme. Quem me olha? Quem eu desejo? Quem está me vendo? O espaço do cruising condensa tudo isso.

CQ: O filme se passa no mesmo estado que tem um governador assumidamente gay. Existe diálogo ou contraste com essa figura?

Diretores: Existe mais contraste do que diálogo. Não foi uma referência direta para nós. Nosso interesse sempre foi pensar em personagens que precisam performar uma vida pública para atingir objetivos profissionais.  Por isso escolhemos duas figuras muito expostas: o político e o ator. Ambos vivem da performance. O político também é um ator,  vai ao palanque, à câmera, vende ideias e uma imagem de si. O filme não quer representar a política institucional, mas refletir sobre o custo subjetivo dessa encenação constante.

CQ: Porto Alegre aparece como força dramática. Como foi filmar desejo e segredo em espaços tão simbólicos da cidade?

Diretores:  Em “Tinta Bruta”, Porto Alegre era quase antagonista. Em “Ato Noturno”, ela se torna uma espécie de femme fatale: sedutora, perigosa, capaz de oferecer tanto ruína quanto possibilidade de reinvenção. Para nós é essencial ampliar o olhar sobre o Brasil, descentralizar o cinema, mostrar a diversidade de paisagens, culturas e sotaques. Colocar Porto Alegre na tela é afirmar que essas histórias também pertencem ao imaginário nacional.


CQ: A trilha cria uma sensação constante de perigo. Como surgiu esse trabalho com Thiago Pethit?Diretores: Diferente dos filmes anteriores, queríamos uma trilha original mais presente, porque o gênero pedia isso. O Thiago é um parceiro de longa data, muito cinéfilo, com referências próximas às nossas. A trilha dialoga com Bernard Herrmann, com o suspense clássico, mas sempre com a preocupação de manter uma identidade brasileira. A escolha de começar com a Maísa foi fundamental para estabelecer o tom: desejo, tensão e fragilidade convivendo desde o primeiro minuto.

CQ: Quais foram as principais influências do noir e do thriller erótico?

Diretores: Começamos olhando para o noir clássico, mas logo percebemos que o thriller erótico dos anos 70, 80 e 90 dialogava melhor com o que queríamos contar. Esses filmes lidam com desejo e perigo de forma mais leve, menos solene. Brian De Palma foi fundamental , “Um Tiro na Noite”, “Dublê de Corpo”. Também olhamos para Verhoeven e até para Cronenberg, como em “Crash”. O thriller erótico opera sempre nessa corda bamba entre desejo e ameaça, que é exatamente o lugar onde queríamos colocar nossos personagens.

CQ: Depois de “Tinta Bruta”, “Beira-Mar” e agora “Ato Noturno”, o que vem pela frente?

Diretores: Estamos desenvolvendo dois projetos: um faroeste, no interior do Rio Grande do Sul, e um filme de horror. Queremos filmar com mais frequência daqui para frente. Nos interessa explorar gêneros diferentes, testar possibilidades, não ficar presos a um estilo. Estamos num momento de muita explosão criativa e queremos nos divertir, para que o espectador também se divirta.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Ato Noturno (Brasil, 2025)

“Ato Noturno”, thriller erótico dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, mergulha na interseção tensa entre sexualidade e esfera pública. O filme segue Matias (Gabriel Faryas), um ator em ascensão, e Rafael (Cirillo Luna), um político emergente, cujo caso secreto desenrola-se em Porto Alegre enquanto ambos lidam com o risco de exposição. A narrativa articula de forma densa a cultura do cruising, o encontro e o sexo em lugares públicos como expressão de desejo, com as imposições do armário político que ainda molda a vida de figuras públicas queer no Brasil contemporâneo. 

O fetiche que une Matias e Rafael não é tratado como escapada ou transgressão isolada, mas como espelho das contradições que atravessam identidade, poder e visibilidade. O cruising funciona como metáfora de uma sexualidade que se afirma à margem das normas, expondo corpos em sua relação com o olho vigilante da sociedade. A escolha de explorar esse território não problematiza o ato em si, mas as estruturas institucionais e sociais que ainda condicionam como e onde o desejo pode existir. 

A escolha de Porto Alegre, terra dos diretores, como cenário é mais do que geográfica: a cidade e seus ícones, do Teatro São Pedro à Praça Marechal Deodoro, passando pelas ruas do centro e pelo Parque da Redenção, onde as orgias acontecem, são componentes narrativos que ancoram o filme em uma cartografia afetiva e política. A fotografia de Luciana Baseggio utiliza esses espaços para refletir a tensão entre público e privado, luz e sombra, desejo desinibido e olhar social vigilante, imprimindo ao longa uma textura visual que dialoga com a presença urbana e sua história queer no Sul do Brasil. 

Em “Ato Noturno”, cenas de palco, sejam ensaios teatrais, sejam performances íntimas, adicionam ao filme um deslumbramento que vai além do impacto emocional. Estas sequências funcionam como metáforas visuais da performance social que os personagens são forçados a encenar, tanto na vida artística quanto em suas vidas privadas. A maneira como o sexo é filmado é sofisticada e cheia de tesão: está integrado à estética do thriller erótico, com clareza e atenção que reforçam a potência dramática do desejo sem jamais cair no soft porn, transformando cenas íntimas em momentos de tensão narrativa e simbólica. 


A trilha musical original e atmosférica composta por Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier, alterna com nomes como Maysa, Oliver Sim, Devendra Banhart e Gustavo Bassani,  e inscreve o tempo afetivo dos personagens numa cadência sensorial que reforça o clima de desejo, nostalgia e inquietude. Cada enquadramento contribui para a sensação de voyeurismo constante, um elemento que ecoa o estigma social enfrentado pelos protagonistas. O personagem Fábio (Henrique Barreira) adiciona camadas de conflito íntimo e profissional, contrapondo ambição, rivalidade e vergonha internalizada, enriquecendo o painel emocional da obra.


“Ato Noturno” caminha por territórios sombrios em que desejo e poder se entrelaçam, construindo uma narrativa que é ao mesmo tempo sensual e politicamente afiada. Reolon e Matzembacher consolidam com o filme uma obra que transcende o thriller erótico, situando o corpo não apenas como objeto de desejo, mas como vetor de reflexão sobre visibilidade, risco e agência.


CONFIRA A ENTREVISTA COM OS DIRETORES


terça-feira, 28 de outubro de 2025

Ato Noturno (Brasil, 2025)

Por Bruno Weber Durante a sua longa parceria, os roteiristas e diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon criaram histórias que, invariavelmente, giravam em torno de dois atos: o de performar e o de buscar. São tramas sobre artistas de vários formatos, pessoas que se acostumaram a desempenhar algum papel ou manter alguma ilusão, seja uma camada de tinta neon sobre a pele ou a aparência de heterossexualidade. E há quase sempre uma busca que move a trama, como o documento perdido em “Beira-Mar" ou o camboy rival do protagonista de “Tinta Bruta". Na verdade, nada disso é especialmente particular no cinema da dupla. O conflito entre mascarar e procurar uma verdade é o que move a maioria das tramas. Mas o que coloca os dois como expoentes do novo cinema queer brasileiro é a escolha de ilustrar esse conflito como tensão erótica, como se o próprio ato sexual entre dois homens fosse um jogo de verdades e mentiras, e que por isso mesmo é tão excitante.


Em seu mais novo filme, “Ato Noturno”, os diretores voltam a explorar esses temas, agora adotando uma linguagem de filme noir, o que apenas aprimora a dramaticidade das cenas de sexo. É a história de Matias (Gabriel Faryas), um ator em início de carreira que começou a trabalhar num grupo teatral famoso em Porto Alegre. Ele divide um apartamento com seu colega Fábio (Henrique Barreira), mesmo que a relação dos dois seja marcada por brigas e desavenças sobre a nova peça da trupe. Esse atrito apenas aumenta quando Fábio começa a ser sondado para o papel principal numa nova série que será gravada na cidade, enquanto Matias ressente não ter as mesmas oportunidades. Mas isso começa a mudar após uma noite, quando Matias tem uma transa casual com Rafael (Cirillo Luna), que ele conheceu num aplicativo de encontros. Matias acreditava que a necessidade de discrição de Rafael era por talvez ele ser casado, mas logo ele descobre o verdadeiro motivo: ele é vereador da cidade, e está iniciando uma campanha para eleição de prefeito. E quando a relação casual dos dois começa a se tornar mais séria, Matias descobre que de repente novas oportunidades surgem para ele. Porém, o aparente conforto do caso secreto dos dois é ameaçado, por um lado pela inveja de Fábio, mas principalmente quando Matias e Rafael começam a explorar juntos o fetiche de sexo em lugares públicos, o que os coloca em rota de conflito com Camilo (Ivo Müller), chefe da equipe de segurança de Rafael.


A atmosfera de teatro não se limita ao ambiente da peça de Matias e Fábio, se estendendo para todos os cenários, da sede de campanha de Rafael até a praça onde encontros sexuais noturnos acontecem entre as árvores. O filme se compromete com o caráter dramático de um thriller noir, com closes fechando rapidamente nos rostos dos personagens, uma trilha sonora angustiante e iluminação teatral criando sombras misteriosas. A primeira transa de Matias é Rafael, por exemplo, é filmada com a sensibilidade e importância de duas obras de arte se encontrando. Suas formas masculinas idealizadas pela câmera e pelas cores vivas do cenário. Uma luz amarelada surgindo de uma fresta na janela brilha sobre eles de repente, quase como um holofote sobre um palco, mas ainda oferecendo o risco de ser uma pessoa se aproximando, prestes a pegá-los no flagra.


Na verdade, a descoberta que Matias e Rafael fazem juntos desse fetiche de sexo em lugares públicos e mais do que um jogo sexual, e fala muito sobre como os dois lidam com suas ambições quando estão prestes a realizá-las. Matias realmente quer ser o ator principal da série, mesmo que isso implique uma "cláusula de comportamento" em seu contrato que praticamente o obriga a esconder sua sexualidade. Assim como Rafael realmente quer ser prefeito, mesmo que precise manter uma aparência conservadora e sua paixão por Matias escondida como um segredo sujo. É exatamente por arriscarem aquilo que mais desejam que ambos se sentem atraídos um pelo outro com tamanha voracidade. Em certo momento, perto do fim do filme, Rafael diz para Matias que eles podem conseguir tudo que desejam e ainda assim ser aceitos pela sociedade... um dia. Se os dois se comportarem bem, não chamarem atenção e fizerem exatamente o que precisam fazer. Ele está apenas recitando o mito do "bom gay", o homossexual respeitável com cara de bom moço, que não reclama de preconceito e nem aparenta ser "anormal". Uma autocensura perigosa, que leva a aberrações como gays e lésbicas rejeitando pessoas trans ou qualquer outra existência queer. Rafael diz isso, mas no fundo tanto ele quanto Matias sabem que não é verdade. É apenas mais um teatro, outra peça que eles estão cansados de montar. Dessa forma, quanto mais perigosas se tornam suas transas, mais elas começam a representar um ato de rebeldia. Isso tudo culmina num final em que sexo literalmente se opõe a violência, uma luta sensual entre os dois conceitos, num palco marcado por sangue, suor, sêmen e saliva.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE 'ATO NOTURNO', NO FESTIVAL DE BERLIM


Primeiras impressões de "Ato Noturno", de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, que teve sua estreia internacional ontem no Festival de Berlim, onde concorre ao Teddy:

O site Filmuforia disse: "Nesta intrigante peça de cinema, os diretores brasileiros mostram como o sucesso e a fama geram confiança e até imprudência em uma estreia mundial a três habilmente roteirizada, extravagantemente encenada e brilhantemente executada na Berlinale 2025".

Para o crítico Jared Abbot: "Criticando as estruturas de poder e as pressão profissionais, ao revisitar e reinterpretar o thriller erótico, Night Stage ousa se libertar das restrições tradicionais, revelando uma paisagem nova e mais complexa para o desejo e o perigo gay.

Além de elogiar a fotografia de Luciana Bassegio, por "capturar a agonia e o êxtase dos personagens em lindos close-ups" o SCREEN DAILY publicou "Um drama inteligente sobre o preço insano que uma pessoa queer tem que pagar para atingir um nível de sucesso aos olhos do público".

O Lound And Clear elogiou, mas nem tanto: “Night Stage se comporta como um thriller erótico que se envolve com sexualidade e perigo, mas não deixa sua narrativa ser conduzida por sua questão central: quanto você está realmente disposto a sacrificar para ter tudo? Em vez disso, o filme aposta em seu valor estético, mas sua sedução e visuais satisfatórios só podem levá-lo até certo ponto antes que as falhas do roteiro surjam à tona”

Lida Bach do Movie Break destacou:  “A teia parabólica de luxúria e mentiras em que o jovem protagonista é pego está cheia de diálogos significativos. As duas histórias do enredo metafórico são igualmente arranjadas de forma impressionante. Ele exemplifica como a abnegação e a hipocrisia desenvolvem um impulso perigoso próprio. O disfarce começa inofensivamente no contexto de uma produção teatral.”

lena_Iguana do Letterboxd escreveu "Masturbação perfeitamente cronometrada seguida de conversas profundas e Tinta Bruta, caras, aghhhhhhh, às 10h da manhã, em Berlim"


“Um perigoso jogo de sucesso, prazer e morte”. Hollywood Reporter



“Estamos muito felizes por sermos novamente indicados ao Teddy Award, um prêmio que destaca não apenas a importância de discutir vivências LGBTQIA+, mas também valoriza a qualidade artística dos filmes”, celebram os cineastas gaúchos, que pela terceira vez participam do festival.

“Muitos cineastas que admiramos profundamente, como Pedro Almodóvar, Todd Haynes, Gus Van Sant, Nan Goldin e Derek Jarman, já foram agraciados com essa honra. Em 2018, tivemos a alegria de receber o prêmio de Melhor Filme por ‘Tinta Bruta’. Agora, com ATO NOTURNO, estamos ansiosos para ver como o público do festival recebe nosso novo trabalho.”



A trama acompanha Matias, um ator em início de carreira que busca sua primeira grande chance ao estrelato em Porto Alegre, participando de um respeitado grupo de teatro. Quando a notícia de que uma grande série será rodada na cidade chega à trupe, a já saliente rivalidade entre o protagonista e seu colega de apartamento, Fabio (Henrique Barreira), se acirra. Mas Matias tem um obstáculo ainda mais desafiador se quiser conseguir o papel do galã: para ter uma chance de realizar seu sonho, o jovem terá que esconder parte de quem é e ceder às convenções de gênero.


Talvez em outro contexto a ambição prevalecesse diante da individualidade. No entanto, ao se envolver com Rafael (Cirillo Luna), um político que vive um teatro à sua maneira, manter suas vontades em segredo se torna uma dinâmica tão opressora, quanto estimulante. Enfatizando as performances simbólicas e literais dos seus personagens, seja no palco, no sexo ou na dinâmica violenta das relações de poder, ATO NOTURNO coloca o espectador na posição de voyeur dos embates íntimos de cada um dos personagens com uma narrativa envolvente, que celebra a autodescoberta, a vulnerabilidade e a ousadia estilística.


Parte da Mostra Panorama, ATO NOTURNO já tem distribuição garantida no Brasil pela Vitrine Filmes. A Dark Star Pictures e a Uncork'd Entertainment abocanharam os direitos de distribuição na América do Norte, enquanto a Peccadillo Pictures lançará o filme no Reino Unido e na Irlanda. A Salzgeber adquiriu os direitos para a Alemanha e Áustria.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

ATO NOTURNO, DOS BRASILEIROS MARCIO REOLON E FILIPE MATZEMBACHER, É SELECIONADO PARA O FESTIVAL DE BERLIM

 

ATO NOTURNO, novo longa dos diretores brasileiros Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, foi selecionado para a mostra Panorama e representará o Brasil na 75ª edição do Festival de Berlim, em fevereiro de 2025. Produzido por Jessica Luz e Paola Wink, o filme já tem distribuição garantida no Brasil pela Vitrine Filmes.

"Estamos muito felizes com a estreia mundial de ATO NOTURNO na Berlinale, um evento pelo qual temos imenso carinho e gratidão", celebraram. "Agora, retornar ao festival com um filme tão especial e que marca um novo passo na nossa cinematografia, nos deixa profundamente emocionados e ansiosos. Mal podemos esperar para aquecer o inverno berlinense com as intensas noites de ATO NOTURNO."

Esta é a terceira participação do duo no evento, que recebeu seu longa de estreia "Beira-Mar" na mostra Fórum, em 2015, e "Tinta Bruta", em 2018, também na Panorama, onde levou dois prêmios: o Teddy Award de Melhor Filme, o mais importante prêmio destinado ao cinema queer do mundo, e o C.I.C.A.E. de Melhor Filme da mostra Panorama.

Protagonizado pelo ator revelação Gabriel Faryas, ATO NOTURNO é um suspense erótico que entrelaça desejo e performance em uma narrativa tensa e sensual sobre identidade e a constante gangorra entre o instinto de se render a ela e a pressão social para negá-la.

O filme acompanha Matias, um ator em início de carreira que busca sua primeira grande chance ao estrelato em Porto Alegre, participando de um respeitado grupo de teatro. Quando a notícia de que uma grande série será rodada na cidade chega à trupe, a já saliente rivalidade entre o protagonista e seu colega de apartamento, Fabio (Henrique Barreira), se acirra. Mas Matias tem um obstáculo ainda mais desafiador se quiser conseguir o papel do galã: para ter uma chance de realizar seu sonho, o jovem terá que esconder parte de quem é e ceder às convenções de gênero.

Talvez em outro contexto a ambição prevalecesse diante da individualidade. No entanto, ao se envolver com Rafael (Cirillo Luna), um político que vive um teatro à sua maneira, manter suas vontades em segredo se torna uma dinâmica tão opressora, quanto estimulante. Enfatizando as performances simbólicas e literais dos seus personagens, seja no palco, no sexo ou na dinâmica violenta das relações de poder, ATO NOTURNO coloca o espectador na posição de voyeur dos embates íntimos de cada um dos personagens com uma narrativa envolvente, que celebra a autodescoberta, a vulnerabilidade e a ousadia estilística.

“Há muito tempo exploramos o olhar e a performance como elementos centrais em nosso cinema. Com ATO NOTURNO, essa investigação permanece, mas os personagens se relacionam com esses elementos de uma nova maneira”, analisa a dupla. “Além disso, tínhamos o desejo de criar um suspense erótico, com toques de noir — um universo que acreditamos dialogar profundamente com o Brasil de hoje. Nesse processo, conseguimos construir tensão, brincar com corpos em movimento e explorar o erotismo em uma ambientação noturna, sedutora e perigosa.”

Com distribuição da Vitrine Filmes no Brasil, ATO NOTURNO ainda não tem data de estreia no circuito comercial.

SINOPSE

Um ator e um político vivem um caso em sigilo e, juntos, descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam do sonho da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco.

domingo, 24 de julho de 2022

Beira-Mar(Brasil, 2015)

Dois jovens amigos, Martin (Mateus Almada) e Tomaz (Mauricio Barcellos), partem juntos de Porto Alegre, para Capão da Canoa, no litoral sul do país. É o lugar onde o avô de Martin morreu recentemente e onde ainda vivem os parentes que ele não vê há anos. Tomaz sabe que será um momento difícil para Martin, mas isso não significa que eles não possam se divertir também.

No entanto, enquanto a viagem é principalmente sobre Martin, Tomaz fica calado sobre uma parte de si mesmo, mas à medida que os dois adolescentes passam mais tempo juntos, a tensão sexual cresce a ponto de eles terem que confrontar se há apenas amizade entre eles.


Com sotaque gaúcho, o filme, dos diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, se interessa pelas silenciosas mudanças nos mundos emocionais dos dois jovens e adentra profundamente a esfera dos adolescentes. 


Há uma naturalidade e espontaneidade entre Martin e Tomaz, sendo a obra um olhar bem estudado de duas pessoas que se conhecem extremamente bem, mas que estão crescendo e percebendo que estão mudando .



Quando eles chegam ao ponto em que o subtexto erótico começa a transbordar, é tratado com ternura e bastante sensualidade. De fato, há uma vantagem sexy em todo o filme, apresentando os jovens como seres sexualmente carregados que ainda precisam lidar com problemas sérios e adultos.

Esses becos emocionais sem saída estão lentamente se desfazendo. É uma época confusa, um jovem se aproximando da idade adulta. Perguntas começam a surgir, questões pessoais que podem nunca ter sido exploradas, pois todos se esforçam para se encaixar na norma social. Temas de inocência e identidade pessoal são abundantes em todo o longa.

O filme é um emocionante e cru coming-of-age. Desde o início, os diretores criam um rico tom atmosférico. Os longos olhares contemplativos de ambos os personagens principais são pontos focais inteligentes através dos quais o espectador pode se identificar.

Jogos de reflexões e silêncios sensíveis banhados no som de um mar onipresente, minimalismo, estética do frio, o frescor de uma interpretação não profissional oferecem a este primeiro longa-metragem, dos diretores do premiado Tinta Bruta(2018), um tratamento diferente dos filmes gays sobre amadurecimento.