Mostrando postagens com marcador Julián Hernández. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Julián Hernández. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de março de 2026

La Huella de Unos Labios (México, 2023)

Durante o confinamento provocado por uma pandemia que lembra diretamente a COVID-19, Román (Hugo Catalán), um ator de filmes B, passa os dias isolado em seu apartamento enquanto o mundo lá fora vive sob vigilância e medo sanitário. Do outro lado da rua vive Aldo (Mauricio Rico), um jovem indígena que trabalha em um serviço essencial e, por isso, tem permissão para circular pela cidade. Os dois começam a se observar à distância e acabam se conhecendo pela internet. Conversam por vídeo, trocam fantasias e criam uma intimidade crescente, mas o contato físico permanece proibido, transformando o desejo em uma força cada vez mais difícil de controlar.

Dirigido por Julián Hernández, “La huella de unos labios” retoma o território que tornou o cineasta uma referência do cinema queer mexicano. Desde “Mil nubes de paz cercan el cielo, amor, jamás acabarás de ser amor”, Hernández demonstra interesse por histórias onde o desejo masculino aparece como motor emocional e também como forma de resistência. Aqui, porém, o contexto pandêmico altera profundamente essa dinâmica. O desejo continua presente, mas passa a existir dentro de um ambiente dominado pela distância, pela paranoia sanitária e pela sensação de um mundo suspenso.

O universo pandêmico não é apenas cenário. O filme captura a estranha psicologia do isolamento, onde o cotidiano se reduz a telas, mensagens e observações à distância. Hernández transforma celulares, videochamadas e janelas em instrumentos narrativos, reforçando a sensação de que os personagens vivem simultaneamente próximos e impossibilitados de se tocar. O confinamento amplia a imaginação e a frustração, criando um ambiente onde o desejo cresce justamente porque não pode ser realizado.

A relação entre Román e Aldo também carrega uma tensão social interessante. Enquanto Román representa um artista urbano preso em sua própria bolha emocional, Aldo surge como figura ligada ao trabalho e à mobilidade dentro de uma cidade paralisada. Essa diferença de posição social cria um contraste silencioso entre os personagens. Hernández usa essa distância não apenas como obstáculo físico, mas como um elemento que reforça a natureza imaginada do romance, onde cada um projeta no outro aquilo que deseja encontrar.

A nudez e as cenas de sexo aparecem como extensão direta dessa dinâmica de desejo acumulado. Hernández filma o erotismo de maneira explícita, mas também deliberadamente estilizada. O corpo masculino é tratado quase como objeto de contemplação, algo recorrente em sua filmografia. Mais do que simples provocação, essas sequências funcionam como liberação da tensão criada pela espera e pela fantasia. O filme sugere que, em um mundo dominado pelo medo do contágio, o corpo se torna simultaneamente fonte de prazer e de perigo.

“La huella de unos labios” talvez não seja o trabalho mais acessível de Julián Hernández, mas reafirma sua obsessão por filmar o desejo como experiência sensorial. O filme mistura erotismo, solidão e paranoia pandêmica em um retrato bastante específico do início da década de 2020. Ao aproximar a pandemia recente das memórias do pânico em torno do HIV nos anos 1980, Hernández cria uma obra que fala tanto de isolamento quanto da necessidade urgente de contato humano.


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Demônios do Amanhecer (Los Demonios del Amanecer, México, 2024)


Do prolífico diretor mexicano Julián Hernández, "Demônios do amanhecer" tem problemas de ritmo, mas mantém atenção do público que torce pelo casal até o fim.

Em “Demônios do amanhecer", Orlando (Luis Vegas) trabalha como gogoboy em uma balada gay, mas seu sonho é mesmo se tornar um dançarino profissional. Um dia, pegando ônibus para a faculdade, o jovem conhece Marco (Axel Shuarma), estudante de enfermagem. Logo os dois começam a sair juntos e não demora para se tornarem namorados. No entanto, como em toda relação, os dois vão enfrentar as dificuldades de uma vida a dois, enquanto lidam com seus problemas internos.


O diretor Julián Hernández tem trabalhos que datam quatro décadas de carreira, mas tem decisões estranhas para posicionar e movimentar a câmera. As movimentações são muito marcadas e acontecem em vários momentos que não são exatamente importantes. Isso reflete mais uma preocupação puramente técnica do que utilizar a lente como ferramenta para contar a história.


Essa falta de atenção está também na fraca estruturação dos conflitos na trama, de modo que alguns momentos soam deslocados. O tema do HIV, por exemplo, entra e sai de cena de forma muito aleatória, e o público não entende qual a relação que os personagens têm com esse assunto e qual o peso dele para a história.


No entanto, o grande motivo para “Demônios do amanhecer” dar certo se deve às atuações de Vegas e Shuarma. Os dois não só desenvolvem personagens dinâmicos e reais, como também compõem um casal muito convincente, graças à química que possuem juntos. 


Portanto, ainda que o filme atinja um ritmo repetitivo de conflito (Hernández não consegue traduzir direito além de verbalizar com fala de Orlando “não sei o que se passa comigo”), o público se vê torcendo por um final feliz para o casal carismático.


Destaque para a seleção musical, que inclui Gloria Gaynor, a banda mexicana Odisseo e um cover espanhol de Elis Regina.



terça-feira, 2 de abril de 2024

La Huella de Unos Labios(México, 2023)

O sempre provocativo diretor mexicano Julián Hernández apresenta um mundo caótico pós pandemia e parece começar a abordar em seus filmes a cultura OnlyFans. Roman(Hugo Catalán), um ator gay de filmes B, cruza o caminho com Aldo(Mauricio Rico), um indígena recém-chegado à Cidade do México.

Apesar de morarem no mesmo complexo de apartamentos, não conseguem se encontrar e são obrigados a conversar online, ou por vídeochamadas, aumentando a tensão erótica para um tom febril. Por fim, a tentação de se encontrar se torna demais, culminando em uma realidade ainda mais combustível do que a anterior.


Vemos suas vidas lascivas antes do lockdown e depois a existência claustrofóbica que levam durante o confinamento. Ambos estão entediados e frustrados, mas Aldo descobre que está ganhando mais online do que ganhava na mercearia em que trabalhava antes do vírus.


O diretor mostra a vida dos dois homens como eles poderiam ter sido, não fossem as restrições que acontecem em sua imaginação por meio de seus encontros online. Román e Aldo se conhecem na rede, podem conversar e se ver por meio de vídeo, mas não podem se tocar. Mas a saudade de sentir os lábios um do outro cresce o tempo todo.


Em La Huella de Unos Labios, a COVID nunca é claramente mencionada, enquanto as restrições das medidas de lockdown são condensadas em uma espécie de cenário, erótico e distópico, de ficção científica com uma atmosfera apocalíptica.






quarta-feira, 3 de agosto de 2022

O Céu Dividido(El Cielo Dividido,México, 2006)

Julián Hernández apresenta, em O Céu Dividido, um sensual estudo sobre o primeiro amor. O diretor  nos leva de volta aos dias do cinema mudo, apenas para pontuar sua história de amor quase sem palavras com uma ou duas frases estranhas, para enfatizar elementos-chave do enredo.

Pois quando Gerardo(Miguel Ángel Hoppe) conheceu Jonás(Fernando Arroyo) foi amor à primeira vista, tão intenso que eles estão mais do que felizes em mostrar ao mundo seu profundo afeto; seja no meio dos corredores da Universidade ou ao ar livre.

Apenas um breve encontro em boate mudará tudo isso, pois Jonás se vê obcecado por um cara na pista de dança, cobiçando 'aquele' em detrimento de seu relacionamento com Gerardo, em um momento em que um certo Sérgio(Alejandro Rojo) aparece. É uma situação em que a única certeza é que as coisas nunca mais serão as mesmas.

Enquanto as cenas do par de amantes jogando jogos de 'esconder e beijar' na biblioteca se misturam sem esforço com um conjunto de momentos doces e muitas vezes eróticos, você sabe que tal felicidade romântica não pode durar para sempre. Basta dizer que as expressões faciais, em vez de palavras, são eventualmente encontradas acompanhando cenas de desespero e angústia.

O elenco principal faz um bom trabalho expressando seus pensamentos mais íntimos, sem falar do desejo sexual desenfreado. Esta é uma obra extremamente física, cheia de cenas de amor e nudez masculina.


O trabalho está encharcado de tons de pele, cinematografia criativa e atenção da direção aos detalhes, que, juntamente com uma série de tomadas de câmera arrebatadoras, mostram um mundo idílico em que ninguém pisca os olhos ao ver a afeição homossexual.

Esta é, em essência, uma obra de teor homoerótico, semelhante a uma  reflexão poética sobre o amor, cheia de emoções que vão da luxúria e desejo até a rejeição, o ciúme e a amarga dor da solidão.